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51 Mendicantos que se bifurcam

       

        Haverá quem, com a intenção de me pegar no contrapé, ao perceber que escrevo sobre o livro do poeta Paulo de Toledo, que vem de ser publicado pela Editora Éblis - aventura encarada por mim e pelo poeta Ronaldo Machado -, faça o seguinte comentário: como editor, na certa ele exercerá a prerrogativa de falar bem da obra, pois em caso contrário estará dando um tiro no próprio pé. Ao apressado e polemista leitor, meu igual, direi que não faço aqui nem uma coisa nem outra. E prosseguindo nesse estilo caro a Machado de Assis, mas sem gastar mais tinta em controvérsias, faço minhas as palavras do cronista de O futuro (1862-1863) que, ao inaugurar a sua coluna, tira a pena do fundo da gaveta e passa a ministrar-lhe alguns conselhos, como por exemplo: “(...) fecha-te no círculo dos teus deveres, quando couber a tua vez de escrever crônicas. Sê entusiasta para o gênio, cordial para o talento, desdenhosa para a nulidade, justiceira sempre (...)”. Não obstante a dose talvez inadvertida de ironia acaciana contida na citação acima, tomo para mim a deliciosa tarefa de ler os 51 Mendicantos de Paulo de Toledo na perspectiva machadiana de ser entusiasta e justo para com o talento do poeta santista. O resto é indiferença e nulidade, isto é, a lógica do desdém e do elogio ratificada pelos vultos consagrados do sistema literário.

        Desde a minha primeira leitura dos originais de 51 Mendicantos, sempre me pareceu interessante confrontá-lo com O inferno de Wall Street (1877) de Sousândrade, seja pela mistura de blague e de poesia política, em seu sentido mais alto, seja pela escolha, em ambos, de um módulo estrófico que persiste ao longo do conjunto dos textos - Sousândrade opta pela estrofe de cinco versos, enquanto Paulo organiza seus signos dentro dos contornos do terceto. E ambos, em que pese a medida precisa e transgressiva de humor, não escondem uma revolta contra as imposturas do seu tempo, fazem a coisa certa, mas sem suportar o moralismo ou o politicamente correto. No entanto, o que me agrada é a perspectiva de confluência das linguagens - o lugar onde os dois poetas vão beber enquanto o bom-senso tira ouro do nariz -, o parti pris da descoberta lingüística inventiva que explode no interior de um limite extremo, a par de uma síntese que não teme o fracasso. Deste modo, risco uma zona sincrônica onde a poesia de Paulo de Toledo e a de Sousândrade simulam um jogo de ressonâncias: “- Abracadabra! Abracadabra!/ Maomé melhor que Jesus/ Entende a mulher/ E não quer/ Nos céus quem da terra é a cruz!” (O inferno de Wall Street); “o mendigo que curtia rap/ e que um dia já fora hippie/ traz na camisa: no hope” (51 Mendicantos).

        Depois, as leituras de 51 Mendicantos foram se sucedendo, até que resolvi desentranhar uma “commedia” do breve volume de Paulo de Toledo. Assim, entre os seus tercetos e os de Dante, consigo identificar alguns pontos de convergência. Para começar, tanto os mendigos de um, quanto as sombras do outro, falam estranhamente por meio de tercetos, ou seja, falam por meio de uma linguagem “arte-feita”; criam um design textual com que revisam as regras da representação verbal. Um sistema de comunicação que deita suas raízes num idioma maternal para com a dimensão equívoca dos sentidos. Desta maneira, fruímos as formulações particulares propostas pelos poetas a partir do acervo da linguagem da poesia, mas que funcionam dobradas sobre si mesmas. Ouçamo-los: “sem mulher nem filhos nem cachorro/ pensa quase feliz o mendigo/ menos gente pra pedir socorro”; e o florentino, por sua vez, nos ministra: “dolce color d’oriëntal zaffiro/ che s’accoglieva nel sereno aspetto/ del mezzo puro infino al primo giro”. Os mendigos zombeteiros vivem de forma paródica os fetiches do “cidadão de bem”, embrulham-nos no papel torpe das imprecações chulas. É como se emprestassem das sombras dantescas um pouco da sua prosápia desbocada: “Ed elli avea del cul fatto trombeta”. O mendigo, consumado “boca do inferno” e juiz desatinado das angústias contemporâneas, solve o impasse num golpe: “prova de história do brasil rasgada/ escrito em azul um grande e belo A/ o mendigo caga e proclama: aprovada”.

               Assim,  deixo-me cativar pela narrativa em frames (Ronaldo Machado dixit) dos 51 Mendicantos que se bifurcam. Ao contrário da narrativa dantesca, onde acompanhamos uma peregrinação ascendente pelos reinos dos pecadores, dos penitentes e dos justos, os mendigos cínicos empreendem um epos através dos círculos infernais do neocapitalismo cosmopolita. O mendigo multíplice e baudelairiano de Paulo de Toledo pervaga ao redor do próprio rabo, repisa as mesmas vias num dédalo vicioso, maníaco. O discurso em tercetos desse trapeiro, discípulo de Diógenes, tem algo de filosofal. Ele se considera enquanto recolhe os restos do seu pensamento partido como os cacos de um espelho que jamais se unirão: “na vitrine da livraria/ best-sellers à mancheia/ e o mendigo que refletia”; e, ainda, esta outra peça: “o sino é de belém/ porque faz blém-blém?/ conjectura o mendigo coçando os badalos”. Já numa outra estação da sua paixão, o mendigo, enojado do lixo de que é filho, às vezes esconjura as metonímias do seu mundo desdenhado pelo luxo: “possuído por um repentino ódio bruto/ o mendigo espanta o gato preto com um chute/ e esbraveja: xô agourento filho da puta!”.

        Dentro dessa vertigem de textos em atrito, o conhecido poema “O bicho” (Belo Belo, 1948) de Manuel Bandeira, se integra à figura constelar das linguagens que entendo decisivas para uma decifração provisória de 51 Mendicantos. Assim, no poema em causa, Manuel Bandeira recorta a silhueta de um bicho “Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos”. Num exame mais cerrado, descarnado de qualificativos poeticamente corretos, o poeta começa a ajustar o foco da sua máquina verbal de produzir efeitos, e numa progressão de enquadramentos, partindo desde o mais difuso até o mais nítido e duro, nota que “O bicho não era um cão,/ Não era um gato,/ Não era um rato.” O desenlace do poema, que não chega a surpreender - acho inclusive que essa possibilidade nem é a que mais interessa a Manuel Bandeira -, nos diz que o bicho “era um homem”, ou que o bicho fora um homem. Com efeito, o poeta não se surpreende com tal metamorfose regressiva (notar a degradação do sujeito e o desafeto que infunde escalonados na simbologia prosaica dos animais escolhidos: o cão, o gato, o rato, como degraus por onde desce, indo do animal civil ao mais incivil, e não sendo sequer a sombra do último). Essa espécie de transmigração asquerosa, não sobressalta o poeta, pois a locução “meu Deus”, do verso final, espremida entre vírgulas e quase opaca, não chega a indicar uma franca desilusão, mas sim um amargo reconhecimento acerca da nossa capacidade para a dissipação trágica que secunda a entropia com que nos debatemos.

        Por outro lado, nas cenas de 51 Mendicantos, o “homem humano” desaparece de uma vez por todas sob a casaca imunda do mendigo. A mundanidade espetacularizada borra os seus contornos. A operosidade mercantil e hipocritamente moralizante de uma linguagem já bastante corroída e corrosiva entende que chamá-lo de “bicho seria um luxo”. Esgotaram-se as chances de antropomorfização do mendigo: ao corrompê-lo, a língua com que fazemos o mundo funcionar, também se corrompe. Não há, para o mendigo, lugar confortável nas fábulas onde o bestiário de outros tempos se submetia a um ventriloquismo de cunho humanista e sentencioso. Se, de boa mente, alguém fosse misericordioso o bastante a ponto de abraçar o mendigo transeunte, três vezes o abraçara, três vezes abraçaria nada. Agora, abaixo do cu do cachorro, informe, aborto e “abolido bibelô”, criatura liliputiana, o mendigo cabe “dentro da lata de leite ninho”.

        Entretanto, mais do que inventar personagens burlescos que escarnecem da própria miséria, Paulo de Toledo engendra mendigos-poemas que se abismam em seres de linguagem, e através dos quais conseguimos ler, como se compusessem uma assemblage da mesmidade, os despojos dos conflitos ideológicos do nosso tempo.

        51 Mendicantos sabe principiar (“o choro vem do fundo do lixo”) e também pôr um término em seu curso (“coração pára no tórax”). Mas, o que vem vindo no vácuo do antes e perturba o durante e salta sobre o depois da rapsódia fragmentária do mendigo protéico, enfim, o que entra na conta dos extravios das significações e das formas que pensam, é essa poesia “para estômagos sadios”, a vida-linguagem do poeta Paulo de Toledo aqui capturada, ou embalsamada - como escreve João Cabral num poema -, neste seu primeiro livro que tive a alegria de publicar.

 


 


Escrito por ronald augusto às 02h48
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