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Teleférico de João Ângelo Salvadori, alguns recortes

 

         Não é bem do conjunto de Teleférico (Ame o poema Editora, 2004) que pretendo tratar aqui. Na verdade, gostaria de chamar a atenção do leitor para o primeiro terço do livro ou, ainda, sendo mais exato, para um breve feixe de seis ou sete poemas. Não quero parecer sovina restringindo tão drasticamente o foco do meu interesse, afinal, o volume contém algo em torno de cento e poucos poemas, todos de primeira. Assim, embrenhar-se em cinco ou seis, parece pouco, mas não é. Por outro lado, fazer com que o leitor se desprenda de um livro de poemas retendo na sua memória cerca de meia dúzia de grandes exemplares, não é coisa de que qualquer poeta, hoje em dia, se possa vangloriar. João Ângelo pode, mas graças a essa elegância à vontade de que é filho, não o faz. Nestes poemas, o poeta, “em vindima”, comemora e bebemora com o leitor o apetite pela poesia, esse “líquido doce e sujo” que experimenta o frescor ou a total fermentação a cada derradeira leitura.

         Ao contrário da maioria dos poetas da nossa geração pós-moderna (década de 1980), excelentes diluidores dos modelos consagrados, João Ângelo Salvadori é um dos poucos a estabelecer um diálogo renovador com a poesia do alto modernismo. E sem mácula dessa erudição perdulária ou desse esnobismo de prontidão que moldam, no presente, a linguagem de uma parcela da poesia dos seus pares. O “mal de Usher” do conhecido conto de Edgard A. Poe, “A queda da casa de Usher”, onde se descreve a mórbida agudez dos sentidos do personagem, o embotamento da percepção pelo extremo requinte, ao menos como ironia, serve de metáfora para o poema do nosso agora-agora.

          Antes de retomar o fio de Teleférico, um breve comentário que considero importante. Nos tratados de metrificação, o ritmo se define por uma sucessão de acentos fortes e fracos/átonos. Assim, o verso pode apresentar tendências, modulações mais ascendentes (predomínio de acentos fortes), ou movimentos mais descendentes (predomínio de acentos átonos). Em outras palavras, alguns poetas se enquadram numa linhagem de poesia mais hard, outros numa mais soft. Este a plenos pulmões; aquele à boca pequena.

        Tomando a questão dos acentos como imagem-síntese, poder-se-ia compor a partir desse ponto uma metáfora para definir a poética de João Ângelo Salvadori. Isto é, sua poesia teria como dado estrutural de fundo-forma, eventos e pulsações característicos de uma vocação (acentuação) átona lato sensu. E andando pela vizinhança, Wittgenstein, por seu turno, ao levar em consideração a valência daquilo que não soa, põe em causa a filosofia quando afirma que “acerca daquilo de que não se pode falar, deve-se silenciar”. E o filósofo alemão avança mais, para ele os “problemas filosóficos” e seus sistemas são produzidos quando o que deve ser silenciado termina por ser dito. Wittgenstein introduz uma pausa átona na vontade argentária de conhecimento.

        Há, portanto, um pensamento que não “aparece” no e para o mundo; um pensamento que não se constitui em realidade sonora: ele é “não-audível”, ou incognoscível. No redemoinho do debate, João Ângelo Salvadori acrescenta a dimensão estética do poema a esta necessidade de não dizer o que supostamente se nos afigura tão claro - ou escuro. Para o poeta de Teleférico, a voluta epifânica com a qual Calderón de la Barca nos convence, e com quem concordamos com satisfação, quando o poeta barroco nos diz que “melhor fala quem melhor cala” diante da razão que se arruína, é o que de fato conta. No livro anterior de João Ângelo, Entre quatro palavras (1991), vamos encontrar entre tantos outros, dois poemas que reiteram as questões discutidas até aqui, um deles diz: “só conta o que não foi dito./ o resto, como em toda reza que se preza,/ só entra numa outra conta...”; e o outro é um haikai que, não por acaso, fecha o pequeno volume: “estrelas no papel/ sem nenhuma palavra/ entro no céu”. O poeta afirma o golpe icônico intrínseco a toda poesia: uma eloqüência não-verbal aparentada ao desenho.

        João Ângelo, através do seu apetite pelos sentidos não contabilizados, neste passo se conecta a Henri Matisse. Uma feita, enquanto o pintor desenhava uma oliveira, observou os vazios existentes entre os galhos e começou a desenhá-los. Se Matisse se detivesse apenas na representação da oliveira que pode ser vista, ou que “aparece” no mundo, estaria pondo em relevo os “acentos fortes”. Mas, o artista, ao representar os vazios, os interstícios da oliveira, desenha, figura os “acentos átonos”: o silêncio. De outra parte, João Ângelo Salvadori inventa símiles para o que não foi dito, “o que é senão espírito” e que quase o faz sangrar; usa as palavras de maneira a que elas sugiram certas idéias ou assuntos mais pelas relações musicais que as ligam do que pelo sentido dicionário com que são apreendidas pelo senso comum. Aquilo de que não se pode falar, ou que cai no avesso átono, significa o poema enquanto objeto estético, e, por sua vez, o poema “realiza” iconicamente o que não pode ser dito.

        Assim, em Teleférico, o poema se apresenta como esse comportamento de linguagem onde João Ângelo “usa a palavra contra ela mesma”. Uma meia palavra que embaça a palavra-sobra-da-ação da “cidade macota” e sua ubiqüidade sem margens: verbo-verba produzindo “um surdo ruído de fundo” capaz de orientar o pouso de aviões “quase em silêncio”; deliberar sobre “a febre digital/ das transferências bancárias”; e derramar-se “por entre os dedos dos camelôs”.  Em contrapartida, João Ângelo Salvadori, à boca pequena, nos faz ouvir uma fala que falece (notar a conjunção paronomástica que o autor nos oferece) ou que farfalha a contrapelo - lembrança da imagem poundiana, para o meu consumo, de um paradiso que se deixa adivinhar apenas quando o vento sacode a ramagem - para, em seguida, ceder lugar a um refinamento de escritura que se dissipa em atenção à impermanência ou à leveza dos seus significados. Entre reza e recusa (um exemplo disso são os títulos in absentia de muitos poemas), o “silêncio no escuro” de João Ângelo, como contraponto ao rame-rame milionário de malditas palavras e prestações, nos impõe uma pausa constrangedora. O poema se põe atento e quase subsume às volatilidades e ressonâncias emprestadas ao universo do capital e aos transes financeiros. Resistência liminar. Mas, aqui, assoma um epigrama solar, à maneira de Diógenes, e, paradoxalmente, em tom de voz mais alto, quase um “gesto ancestral” na tentativa de administrar o “remoto desconforto” desta outra vida de aquém-túmulo, o poeta nos diz: “este dia é todo meu./ afastem-se, abutres!/ xô, aves de mau-agouro!/ quero o arco do sol/ desde a primeira prata/ até o último ouro”.

       E, por fim, ou melhor, suspendendo por agora a leitura, mais este poema, através do qual o autor otimiza facetas do étimo, mas desde parâmetros poéticos que implicam um trato não reverente com o acervo da tradição. Note-se, além dos resquícios algo alambicados de correção gramatical servindo de insumos a uma escrita quase neográfica, ao mesmo tempo que prosaica, a dispersão anagramática em alta ocorrência do fonema / l / palatal. Como se fora um ícone das trocas dessa língua agora em migração aliterativa através do corpo do texto: “não somos os donos da língua// pegamo-la emprestada/ de além mar/ de além-túmulo/ de um pai ou pátria/ que nos renega ou nos mima// os investidores talvez venham/ um dia/ cobrar sua/ usura// mas já não poderemos devolvê-la/ pois a consumimos/ a mascamos/ revendemo-la como mascates/ nas feiras// eles que lancem novamente ao mar/ suas caravelas”.



em 2006 publiquei aqui, se não me engano, a primeira versão deste texto. agora republico-o, revisto e ampliado.


Escrito por ronald augusto às 23h25
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