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Através de Solecidades

       

       Mais do que simples lance esquivo e equívoco de linguagem, a palavra-montagem “solecidades”, que serve de título ao livro de estréia de Ronaldo Machado, aponta para a estrutural relação desse poema em parcelas com as falhas (no sentido de “fissura”), com os fragmentos e com as errâncias constitutivas das controversas personae poéticas do alto modernismo. Seqüência intertextual, espelhismos, transculturação, afinal, do que se trata?

        Em Solecidades ( www.editoraeblis.zip.net ), Ronaldo estabelece uma interlocução delicada, à meia voz, e menos com os seus mestres do que com as cidades estéticas e éticas erguidas e/ou esfumadas por eles. As cidades, como ruínas ou monumentos sígnicos, estão na base das mitologias da modernidade: Dante e os reinos ínferos, Baudelaire e o poeta trapeiro, T. S. Eliot e a terra estéril, Oswald de Andrade e o jornal “onde anda todo o presente”; enfim, todos os grandes poetas do cânone ocidental leram o livro das cidades.

       Ronaldo Machado também faz o seu périplo através desses espaços de som e sentido, e da memória pessoal, mas num registro menos épico, focalizando a atenção nos arrabaldes e em suas “indecifráveis histórias” com um olhar lírico-imagético que percorre estes “restos da cidade” transliterados a partir dos despojos discursivos de seus precursores. Entretanto, o leitor atento perceberá que Ronaldo lida menos com os topos do que com os tropos. Cidade feita de passagens, rede de textos-instalações. O poeta incorpora o tom crítico e a lucidez auto-irônica de uma linguagem que negocia e negaceia sua condição de texto relativizador (no sentido forte de se pôr em relação).

        Esboços de uma cartografia, a cidade fraturada de Ronaldo Machado, espécie, ainda, de software (ou eidos) destilado do seu cânone particular, não deve ser confundida com essa megacidade hard, impraticável máquina do mundo, em cujos centros e periferias nos aglomeramos mais como reféns do que como cidadãos. Em Solecidades, o poeta afivela a máscara da confissão e diz: “a cidade encardiu meus sapatos novos, feitos para urdir/ carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado”.

        Sob o sol corrosivo da linguagem, a cidade-metáfora de Ronaldo se deixa nomear por todos os lados e vielas, e pelas culpas incrustadas na fala desse velho fantasmático que, aparecendo no poema aqui e ali, parece ser o herói insolvente de Solecidades - velho que talvez simbolize uma tradição em cheque, ou a esterilidade, o esgotamento a infiltrar-se na precária novidade do agora.

        A cidade-metáfora se deixa nomear, inclusive, pelo seu avesso, isto é, a terra ignota, o mítico interior geográfico. No caso em particular, o pampa representa a contraparte inextrincável compondo o oxímoro. “O pampa se esparrama pela cidade”.  Pampa, palavra-poema que “mancha a página” da cidade (“simétrico tabuleiro”) e diz-se a si mesmo como metáfora negativa, ao revés, da cidade. Por isso o pampa é “de pedra”, “de granito”. O sema “pedra” representa por metonímia a cidade, sua teia de muros e seu silêncio murmurante.

 

 

 



Escrito por ronald augusto às 23h09
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