Os poemas envelhecem, mas por um feliz paradoxo - ou deveríamos creditar isso ao nosso sempre insatisfeito desejo de linguagem? - raros são os que de fato passam dessa para melhor. É importante ler, ou reconhecer, no poema, algumas coisas que informam seu ponto de partida histórico; sua localização num preciso trecho de tempo. Na “eternidade” dos clássicos, no encanto que experimentamos durante o ato de sua leitura, colaboram vincos, pátinas, limos de outros tempos. Isto é, aquela dimensão ilimitada que essas obras sugerem-nos possuir, deita raízes nos rasgos contingenciais, nas molduras de tempo e lugar em que foram engendradas. Mas, isso é apenas um dos dados estéticos do jogo proposto por tais obras de retaguarda. Uma vereda por onde se poderia percorrê-las. Poemas são cápsulas de e do tempo. Não há como interditar a passagem e o desgaste do tempo através do ser de linguagem do poema. No âmago do poema decrépito crepitam perspectivas do novo.
Nem sempre somos os mesmos quando nos abandonamos à leitura. Cada texto engendra uma máscara que o leitor concorda em afivelar à sua própria face visando uma fruição mais radical. O tempo e o lugar, às vezes imprecisos na trama textual, convidam-nos a um jogo de simulações. Através do teatro da língua literária, nem sempre representará um choque sísmico passar, por exemplo, do Ecce Homo de Friedrich Nietzsche, para os poemas líricos de Dante. Com efeito, o discurso e a retórica são outros, assim como os dilemas estéticos e morais, e, além disso, a ideografia. Mas, o ponto de mixagem, o sorvedouro onde esses contrastes menos se anulam do que se retesam é o efêmero presente da linguagem que nos toca; seus transes de significantes e significados num plano de fuga.