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UGOLINO

(este texto é parte de uma das aulas do II Curso de Verão "No ambíguo tempo da arte verbal" que ministrei na Palavraria em janeiro deste ano, e é dedicado aos amigos-alunos: Cristiane, Évelyn, Jackeline, Jaime, João Pedro, Ilan e Luiz Amaro)

Jorge Luis Borges num penetrante ensaio intitulado "O Falso problema de Ugolino", incluído em Nove Ensaios Dantescos (1982), procura demonstrar que a polêmica travada entre diversos comentadores da Commedia a respeito do episódio em que Ugolino supostamente devora, vencido pela fome, os cadáveres dos filhos e netos (Inferno, XXXIII), não passa de inútil controvérsia. Borges sustenta a tese de que deveríamos propender a uma análise estética ou literária do episódio em questão. À pergunta de índole historicista, Ugolino comeu ou não a carne dos seus filhos e netos em Fevereiro de 1289?, Borges responde: Dante não quer que o leitor pense que Ugolino praticou canibalismo, mas que disso suspeite. Isto é, a culpa presumida de Ugolino - preso no Inferno de Dante e não no da História - encontra-se num ponto indecidível de nossa imaginação. Voltemos a argumentação de Jorge Luis Borges, "No tempo real, na história, sempre que um homem depara com diversas alternativas opta por uma, eliminando e perdendo as outras; não é assim no ambíguo tempo da arte, que se assemelha ao da esperança e ao do esquecimento. Neste tempo, Hamlet é prudente e é louco". Consideremos, agora, alguns tercetos do episódio de Ugolino: "A boca levantou do vil repasto/ aquela alma, limpando-a no cabelo/ do crânio que ela havia por trás já gasto." Dante instiga ou ludibria a imaginação do leitor, apresentando logo no primeiro terceto a sombra de Ugolino devorando o crânio do seu suposto traidor, o arcebisbo Ruggieri. A imagem pode induzir à leitura de que Ugolino talvez tenha devorado os corpos de seus filhos e netos, embora não a suporte em definitivo. É uma espécie de finta, de recurso dramático, prepara, tensiona, e, de resto, manipula a emotividade do leitor. É preciso ter estômago ou ser um monstro para comer esse "fiero pasto". Mais adiante, Dante escreve: "Quando a luz inda escassa se apresenta/ no doloroso cárcer, meu semblante/ nos quatro rostos seus se apresenta./ Mordi-me as mãos de angústia delirante./ Eles, cuidando ser da fome o efeito,/ de súbito e com gesto suplicante,/ disseram: ‘menos mal nos será feito/ nutrindo-te de nós, pai: nos vestiste/ desta carne: ora sirva em teu proveito’ ". O tradutor, nessa passagem, atenua o que em Dante soa mais áspero e menos alusivo. Senão, vejamos: Ugolino morde as próprias mãos, ferido pela angústia de ver seus netos e filhos definhando. Por sua vez, eles interpretam sua atitude cuidando ser efeito da fome. No original eles concluem que seu avô e pai procede assim per voglia di manicar. Por vontade de comer. O verbo manicar é cognato de manducare, mangiare. No entanto, quando Dante atinge o momento extremo do episódio, e sempre tirando proveito dessa dialética, desse jogo de avanços e negaceios, o poeta florentino propõe um verdadeiro "verso aberto", onde o desfecho resta em suspenso como um acorde dissonante. Dante recua daquele momentâneo "realismo" algo cruel, e convida o leitor a se equilibrar nesso fio hesitante que diz respeito ao julgamento de Ugolino: Poscia, piú che’l dolor, poté’l digiuno. O verso da Commedia não condena nem absolve Ugolino.

 



Escrito por ronald augusto às 17h38
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