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a quatro mãos

A alta modernidade, desierarquizando as linguagens, movimenta-se em oposição ao cânone. Na verdade, ela antes treslê do que nega esta forma de condensação da informação. Como transculturação da Ilustração, a modernidade se caracteriza pela secularização total, isto é, investe num questionamento sistemático - não importa em que esfera do saber - daqueles preceitos e conceitos impermeáveis, cujo efeito sobre nossos afetos e mentalidades é, em muitos aspectos, arrasador. No entanto - e aqui poder-se-ia falar numa contradição entre termos -, a modernidade admite suas investidas canônicas ao mesmo tempo em que opera através de sucessivos lances dessacralizantes.

A impossibilidade de um cânone hegemônico é defendida pela modernidade através do pensamento crítico de artistas e escritores como Duchamp, Nietzsche, Freud e Pound (não obstante o conceito de paideuma do último). Em contrapartida seus epígonos, ou os que se sentem herdeiros dessa linhagem, mais por pragmatismo que por incompetência, tendem a instituir algo como um contracânone, emergente e alternativo, em que os textos destes pais fundadores ocupam o ponto mais alto. Ponto de fuga e de virada, interessado em redefinir posições da força e de dominação. Entretanto, a entronização de uma nova perspectiva canônica patrocinada, por exemplo, pelo relativismo multicultural, relega a segundo plano a pergunta decisiva acerca da razão de ser de qualquer cânone e suas eventuais reencarnações. Até onde podemos supor, parece tratar-se, grosso modo, de convencional substituição, e a este respeito ocorre-nos o seguinte pensamento de Hannah Arendt, “o substituto ainda tem alguma coisa a ver com aquilo que vai substituir”.

(ronald augusto e cândido rolim)

leia a íntegra em:

http://www.overmundo.com.br/overblog/despojos-canonicos-e-poesia-contemporanea



Escrito por ronald augusto às 18h51
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