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anotações para elegias urbanas

ao longo das cerca de 65 páginas do livro de marco vasques, que capta o perfume de um “apocalipse pulverizado” (como refere ademir demarchi na apresentação), acompanhamos o périplo-ressaca experimentado pelo poeta na sua desleitura do livro das cidades. não se trata da náusea do sujeito que se situa a partir de uma visada negativa em relação ao estado de coisas do seu tempo, fato que talvez se lhe exigira, em contrapartida, uma atitude entre forasteira e fleumática. em elegias urbanas (rio de janeiro, ed. bem-te-vi, 2005), pelo contrário, o poeta se vê implicado nos horrores que ele mais registra e recria do que denuncia. como diria o filósofo não-alemão, qualquer moralizar, aqui, resultaria imoral. não obstante, não há chance para qualquer lance de cinismo esnobe. afinal de contas, os destroços da cidade que soçobram à tona da linguagem desses poemas assumem, aqui e ali, as formas do manicômio, do hospital, do hospício, da necrópole, etc., esses mundos às avessas onde o ruim e o ruinoso impõem à vida o seu tributo. e essa é a razão pela qual marco vasques não vasculha a cidade como um flâneur. sua deambulação agônica através dessa verdadeira waste land, parece ser feita desde os solavancos de uma ambulância; o poeta “like a patient etherised upon a table” (t. s. eliot) ou na “maca da urbanidade”, ouve vozes e é fera vociferante enfiada num pesadelo febril; noto em suas elegias uma dicção, por assim dizer, de “poema em linha reta”, um desvelar áspero e forte. a cidade, em elegias urbanas, deixa de ser o labirinto estético “das luzes” e é rebaixada, finalmente, à condição de ruína glamourizada, monturo, “morredouro do sentido”, despojo das entropias ideológicas. cenáculo ínfero, a cidade devora as próprias entranhas. a barbárie, térmita de mil tentáculos, recua, retroage até o ponto-caroço de um transe individual, privado. (ronald augusto)
(excerto da elegia 23, marco vasques)
quando o fantasma se afastar
da alegoria do corpo
e todos forem apenas a dobradiça
que lateja nos muros da cidade
o mel escorrerá amargo na superfície do solo
uma cadeira em chamas lavará as mãos sujas
que jogam a cal no calabouço
das últimas carícias
dos desejos enclausurados
de toda espécie de sentido
porque a moratória da morgue
prevê o vencimento das sensações
muito antes do prazo prometido
(...)
Escrito por ronald augusto às 19h45
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bota uma estranheza nesse qorpo!
Dizem bem, os maledicentes, que o modernismo no Rio Grande do Sul, ratificando o mito do gaúcho como “ser do-contra”, não coincidiu em termos cronológicos com o do centro do país. Chegou com atraso, nenhuma surpresa. Do mesmo modo, a decisiva contribuição gaúcha à poética da ruptura também não foi coincidente com as datas que assinalam o período das vanguardas. Desta vez, é bem verdade que involuntariamente, um representante da terra chegou antes. Noventa anos antes, exatamente. O responsável por tal audácia foi o dramaturgo e poeta Qorpo Santo (1829-1883).
O autor de Mateus e Mateusa é, sob todos os aspectos, um artista verdadeiramente revolucionário. Fundador. Em termos poundianos, não há outro meio de classificá-lo senão como inventor. Segundo Guilhermino César, foi o precursor do Teatro do Absurdo. Já para outros, um surrealista avant-la-lettre. De minha parte, restrinjo-me a destacar seu teatro-síntese, antiteatro, teatro para acabar com o - ou um certo tipo de - teatro: a well made play, modelo do drama realista do século 19, como anota Leda Martins em seu O Moderno Teatro de Qorpo Santo, (1991). A dramaturgia de Qorpo Santo, espécie de anti-arte - razão pela qual Décio Pignatari declarou que a linguagem qorpo-santense é pop e ponto.
Dentro dessa perspectiva, e recorrendo a Roman Jakobson, acrescentaria que os distúrbios afásicos de sua linguagem concorrem para a desestruturação da cena teatral. Não obstante a prosa sobre a qual se assenta todo o seu teatro, o que Qorpo-Santo faz, aproxima-se mais da poesia. Pensa ideogramicamente. Suas comédias são construídas segundo um princípio de montagem: blocos narrativos que se justapõem sem que haja entre eles o menor fio de enredo. Linguagem em dissolução, “a ida inacabada do subjetivo ao objetivo”. Ou como escreveu Leda Martins: “pura experimentação, flashes de situações diversas que se sucedem no palco sem apresentarem seqüência ou unidade”. Anti-clímax. Qorpo Santo aprecia as rimas internas. O efeito jocoso provocado por essas rimas engastadas no metadiscurso dos seus personagens, saturando ou abrindo fendas no tema e no argumento, se constitui no exemplo mais simples do distúrbio afásico da contigüidade - prosa - encontrável no teatro de Qorpo Santo. Parafraseando Jakobson: Qorpo-Santo, a inaptidão para o discurso teatral previsível e a deterioração da capacidade de construir enredos propícios a montagens anêmicas.
Mas, ainda há lugar para todos no teatro qorpo-santense. Há, por exemplo, lugar para os ideólogos da desconstrução e do multiculturalismo. A título de instigação, notar: o sexismo carnavalizado, mescla de misoginia e feminismo grotesco; o machismo circense, homem-palhaço travestido de mulher: laranjas saltando do sutiã. E para os estudiosos de literatura comparada, não será custoso perceber que o grosso e o fino - the hard and the soft - na invenção verbal oitocentista brasileira estão emblematizados, respectivamente, em Qorpo-Santo e Machado de Assis.
Escrito por ronald augusto às 00h40
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