Meu Perfil
BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Homem, Portuguese
Yahoo Messenger -



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 deste para melhor
 poesiacoisanenhuma
 verbavisual
 ronaldomachado
 jaguadarte.zip.net
 editora éblis
 paulo de toledo
 ricardo o bardo
 www.dichtungsring-ev.de
 www.germinaliteratura.com.br
 ameopoemaeditora.com.br
 www.umbigodolago.blogspot.com
 ospoets
 slope
 soma.zip.net
 eu tenho Critério
 jornal de poesia
 ed. perspectiva
 mauro faccioni filho
 carlosbesen.blogspot.com
 cronópios
 filhos de orfeu
 clareira na selva
 jpwapler
 blog do prof. hingo
 overmundo
 famigerado
 literafro
 poesiapau2
 revisados de dione veiga
 o simulador sandro ornellas


 
 
poesia-pau


porradas e bodarrada

      Em recente artigo intitulado “Deputados, chuchadores e tráfico poético”, que pode ser lido em http://www.germinaliteratura/literaturacr_julho2006.htm, o poeta-crítico Cândido Rolim, ao tocar no nervo da questão que diz respeito à maneira pela qual nos relacionamos com o passado, propõe uma leitura neográfica da poética do Luís Gama (1830-1882).

      Geralmente lemos os poetas mortos por meio de um discurso em estado de lápide, as afirmações e/ou negações se prestam a inscrições tumulares. O resultado é que tanto os repudiados quanto os incensados, em fim de contas, acabam se encontrando numa zona de indiferença estética. A rigor, o senso comum - ou o censor interno do leitor - não sabe explicar porque razão este autor, e não aquele, experimenta uma temporada no inferno. Mas, neste ponto colaboram as disputas de poder inerentes à política literária.

      De fato, o poeta de Pedra Habitada faz uma baita tresleitura indisciplinada. Cândido Rolim, se entrega a uma escavação sacrílega embaralhando os restos mortais de Luís Gama.  Agora, só para polemizar, embora ele discorde da minha idéia de que o leitor (inteligente) pode re-inventar analogamente, quer em termos sintáticos, quer em termos semânticos as vacilações e o esforço envolvidos no ato da elaboração do poema - e ao contrário do que Cândido pensa, isso não pressupõe concordância metafísica dos atos, mas, antes, aponta para um embate dialógico entre fatura (fazer poético) e fratura (incisão em busca dos sentidos: tarefa de que se investe o leitor desregrado e inventivo) que, aliás, justifica o clichê de que o escritor é antes de tudo um leitor -, continuando, embora o poeta-crítico discorde, sua “operação tradutória”, (des)dizendo “chuchadores” em termos de xuxadores, é de uma agudeza genial, uma operação traidora de tal ordem, que ele opta por bulir não só nos significados, mas nos significantes. Luís Gama não disse isso, mas disse, isto é, agora, disse. Pois, “disso o leitor, alheio a si, se encarrega com mais eficácia” e acídia.

      Cândido Rolim interpreta por um meneio pop, bastante sarcástico, um poeta que, seja por sua situação muito pretérita, seja por sua militância abolicionista - até hoje seu gesto político merece, nos compêndios, mais relevo do que sua poesia -, tende a ser lido com um respeito mais histórico e diacrônico do que de um ponto de vista criativo, “adaptado-condenado ao mundo de hoje”. Em suma, tal leitura que revigora e revoga, acaba sendo fiel, pelo avesso certo, à bodarrada do poeta baiano, ele ri por último ao lado de Brás Cubas, sete palmos abaixo de nós - sim, eles detestariam restar no céu, arrodeados de querubins branquinhos feito algodão.



Escrito por ronald augusto às 23h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Uma temporada no paraíso da linguagem - 23 anos depois

 

      O poema ultrapassa a necessidade humana de nomeação das coisas, sempre interessada em dar sentido ao entorno do real. Esta é a leitura provisória que desentranho do poema “Hoje”, que integra o volume Matiz de Estação (1983) de Dione Veiga Vieira: “Hoje/ O poema me existirá/ antes que se dê nomes/ às coisas”.

      Já há algum tempo, observo o poema como algo que se acrescenta ao mundo, isto é, um objeto (estético) entre outros objetos, uma coisa entre outras; porque o poema, este ser de linguagem, não faz referência senão a sua própria realidade. Ele não cumpre, a rigor, a função que todo signo, por sua natureza, deve cumprir, a saber, representar por analogia ou na ausência, o mundo e as coisas nele contidas. O poema é um hipossigno, ele é tão-só a representação de si mesmo. Pelo menos teoricamente, todo poeta deveria se dar conta dessas contradições, mas a maioria ainda é muito “inspirada” para atentar para questões do tipo.

      Por outro lado, o caso de Dione Veiga Vieira, não sei se devido a essa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, torna-se instigante, pois, sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação, infelizmente, seu único livro até agora. O apetite demonstrado por Dione Veiga pelo poema na pele de coisa encarnada, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão, talvez se explique pelo viés da porção artista visual de sua personalidade. Ou seja, o artista, em que pese a fase inicial de concepção da obra, quando são encarecidos aspectos mais intelectuais e especulativos, mantém, em geral, uma relação mais física ou corpórea com os materiais através dos quais sua criação se presentifica. Portanto, produto de uma dialética entre o febril e o fabril, quando a obra alcança um lugar ou se materializa, mesmo que de maneira fugaz, ela inaugura seu ser tangível de linguagem.

      Assim, nos poemas de Matiz de Estação, não há confusão entre o imaginário e o real. Mais do que uma representação do mundo, eles se configuram como a invenção de um mundo à parte, sem margens precisas, que obedece à gravidade e leis próprias: “(...)Uma tarde roçando a margem de um mar/ interno. O dia inteiro e orgânico virava/ coisas sem ruído...” (“Começo”, pág. 9). Cada poema se abre como uma lacuna, um intervalo carrolliano. Feito Alice, a viagem de queda a que o leitor é submetido rumo ao fundo insondável de tal linguagem, detona todo um jogo de leituras desejosas, festa à boca pequena, sussurro à beira da argila, da carne: “O corpo e as coisas. profundar.” (“Dânae”, pág. 26).

      O leitor cai, mas sem se recusar ao prazer desse corpo que (lhe) cai (bem), em câmera lenta: “O corpo lua/ do cheiro// A madrugada/ a madrugada/ a madrugada/ a madrugada” (“Melodia”, pág. 12). Notar a queda, materializada na repetição em abismo de “a madrugada” que se aprofunda em si mesma.

      Os poemas de Matiz de Estação, tanto os verbais, quanto os não-verbais (folhas num gestual ideográfico, metonímico preto no branco), formam a cartografia equívoca desse mundo de signos cuja existência deita raízes nas conjunções e disjunções sensório-estéticas de Dione Veiga: “nenhum universo de noites/ nenhum cordão de anil/ (...)/ nenhum nenhum nenhum/ nenhum húmus de terra/ nenhum musgo sobre as pedras...” (“Sensitivo”, pág. 20). Em cada poema-mundo, a poeta convida o leitor a fruir a sempre efemeridade do acabar-começar da linguagem: “(...)ao finito aos traços aos fios aos trilhos ao”.

 

Ronald Augusto

Porto alegre, 2006



Escrito por ronald augusto às 23h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]