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duras antinomias
“Para enfrentar o problema da dificuldade, a solução é render-se. Quando nos rendemos, uma flor rara, ainda que precária, desabrocha. Tão logo deixamos de cobrar o que falta à narrativa - ou ao poema, ao conto, etc. - percebemos o que ela contém.” (Salman Rushdie)
Cada texto é um jogo com suas próprias regras. Quando enfrentamos um texto, aceitamos essas regras, combinamos que todos os sucessos e acidentes decorrentes do percurso interpretativo em que estamos implicados, compõem a figura desse texto. E enquanto ele dura, torna-se uma, ainda que fugidia, realidade a qual estamos submetidos. Fim de jogo, fim de festa. Um outro texto, outras regras.
Não posso ler Jorge Amado esperando que ele me ofereça invenções verbais próximas às de Joyce. E se James Joyce carece do realismo colorista do romancista baiano, só me resta, afinal, aceitar essa falta. As regras, os jogos de linguagem de um e de outro são diferentes. Quando leio Joyce encarno um tipo de leitor, sou uma coisa; quando me debruço sobre o texto libidinoso de Jorge Amado, sou outra coisa. Tiro de dentro de mim um outro leitor com diferentes expectativas em relação ao texto. A literatura nos faz outro. Podemos experimentar a outra margem. Talvez isso seja o “render-se” a que se refere Salman Rushdie. Ficar a deriva, permitir que a linguagem nos conduza, “nos faça atravessar” terrenos movediços. Depois, ao sairmos desse lugar, a única coisa que conseguimos reter é a flor precária de um significado efêmero. Um outro jogo, ou seja, um outro texto nos espera.
(ronald augusto)
Escrito por ronald augusto às 17h01
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