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explosão esquiva
sístole (rio de janeiro, ed. bem-te-vi, 2005), de mônica de aquino: fibrilações de uma fala que se desdobra sobre o corpo-poema, “câmbio clandestino” debatendo estados de corpo, essa condensação de ausências. o “búzio surdo”, retorcido porque concentra em sua forma o recuo a prefigurar um salto de sensações pensadas. silêncio na véspera de resolver-se, de ensolarar-se em som, significância. as sentenças de sístole, sibila de ciciantes ss: “displicente ausência”; “lápis sobre o nada” (anoto: suspensão e suspeição da escritura); “... e o excesso é cansaço/ mas sigo cega...”; “aceita/ o silêncio/ distraído” (...) “o corpo/ condensado em ausências”; “... noite abstrata/ que disseco...”; etc. embora mônica de aquino abra o seu sístole com uma epígrafe de sylvia plath, a contribuição de orides fontela - que é, inclusive, também homenageada com outra epígrafe, não ao livro, mas a um poema -, a contribuição de orides fontela à linguagem da autora, me parece mais duradoura e rica, principalmente no tocante a, digamos, uma diástole de conjunções e sentidos menos evidentes. por exemplo, poder-se-ia aventar uma opacidade comum a ambas. entretanto, a opacidade de orides se revela mais ameaçadora, metálica, até; seus poemas compõem um tipo de tratactus analógico acerca dos fenômenos, mas, estes são representados como sombras luminosas que sobram dos nomes que lhes designam. por outro lado, não há, a rigor, opacidade na poesia de mônica de aquino, talvez pudéssemos falar em algo próximo de uma veladura (com aqueles sentidos resgatados às artes visuais), um semi-cerrar de olhos para o mundo; ou, ainda, seduzidos por certas coisas que sobem, por exemplo, à flor do texto do último fragmento da seção “extra sístole”, não soaria mal se disséssemos que sua poesia se presentifica “na displicente ausência” e “na incoerência exata” do desejo vertido como linguagem de poema: afasia de “ar que se ausenta/ neste arfar de falta”. (ronald augusto)
dois poemas, de lambuja.
Rasgos
no ponto-cheio
do meu corpo
contra teu corpo
alinhavado.
Tecido suturado
ponto-cego do desejo.
Agora, desabotoa-me a pele
atravessa-me.
Veste-me teu corpo
de seda e silêncio.
* * *
Estreito labirinto
de memória.
Carícia em cadáveres
insones.
Culto de esqueletos
na negação
da pedra.
(mônica de aquino)
Escrito por ronald augusto às 17h21
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