| |
para quem não leu ainda

Close/open
Confissões Aplicadas está repleto de poemas cuja relativa incomunicabilidade (que marca parte da minha produção) aparece bastante refreada ou quase anulada. No entanto, ainda sou “cobrado” pelos poemas menos aderentes a uma vocação mimética ou referencial. Os poemas desta vertente ainda são entendidos, me parece, como peças mal resolvidas e/ou herméticas. Na realidade, indicam, apenas, uma forma de representação do signo literário. Uma sua dimensão ou possibilidade. As linguagens às vezes se apresentam mais ou menos opacas. A opacidade mais radical transmite uma informação estética diferente e que é específica a esta condição (ou tensão) da linguagem, isto é, trata-se de um trobar clus. Do contrário, a poesia do Mallarmé de Un Coup de Dés estaria muitos furos abaixo, por exemplo, da poesia de “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto. Mas nenhuma é superior/inferior à outra. Nos achamos frente a duas tendências de agenciamento da função poética.
Antonio Candido, no ensaio “O Albatroz e o Chinês”, formula de outra maneira (embora vá no mesmo rumo de reflexão) os tópicos esboçados acima. O ensaísta argumenta que a expressão literária ou poética implica uma “dialética (dilema) do espaço aberto e do espaço fechado”, que, por sua vez, apontam para um caminho que se bifurca em duas direções, numa o “desejo de representar o mundo” e, noutra, o anseio pela “invenção de um mundo autônomo”. Mundo da linguagem e/ou a linguagem deste mundo (que Guimarães Rosa chama de) “aquém-túmulo”.
Escrito por ronald augusto às 16h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
conversa entre sujeitos inteligentes
Paulo de Toledo: Poesia é “material + procedimento”?
Eu diria que, como a música, poesia é um som e uma pausa; a sílaba tônica e a sílaba átona. Mas, poderíamos complicar um pouco as coisas dizendo o seguinte. Depois das vanguardas da metade do século 20, a idéia de “material” muda de figura. Por exemplo, a arte contemporânea discute a questão da desmaterialização dos seus signos, isto é, cada vez mais se verifica uma recusa aos materiais e suportes consagrados pela tradição das “belas-artes”. O artista contemporâneo tem a sua disposição uma grande variedade de materiais e suportes. A madeira, o bronze, o mármore, a tinta, o barro, a tela tensa na moldura, etc., já não representam elementos inescapáveis da gramática artística. A estética do precário/efêmero trouxe para a arte os “materiais da vida”, a dose necessária de anti-arte. Aqueles materiais “eleitos” correspondem a um tipo de arte concebida para durar além das intempéries. Os materiais e suportes tradicionais exigem do artista seu caráter de artesão, o sujeito que extrai o máximo da matéria-prima. Hoje em dia, o lado artesão começa a perder fôlego. Na academia não se fala mais em “artes visuais”, mas, antes, em “poéticas visuais”. Com isso se privilegia o design de linguagem, a idéia-imagem projetada sobre jogos esquivos de sentido em detrimento da ação física sobre a matéria cujo objetivo era guindá-la aos estratos do sublime. O pintor Volpi dizia que na realização de seus quadros a execução era fácil, complicado era o engendramento da idéia. Mas idéia, aqui, não equivale à conteúdo, a arte seria, antes, uma estrutura, uma coesão-tensão de signos, uma “coisa mental”. Em poesia, acontece algo similar. A palavra e o silêncio já não são os únicos materiais a disposição do poeta. Ou, dito de outro modo, o verbal da lírica de Camões não é o mesmo verbal da música “sem-versista” da poesia concreta.
(para conferir a íntegra desta entrevista visite: http://www.revistabula.com/coluna9-2006-05-22.php)
Escrito por ronald augusto às 16h15
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
sem pausas

o preconceito racial vive abre os olhos hiberna numa zona intermédia entre o costume história como texto divino hábito treta milenar e o reino da estupidez congenial ao nascimento sentimental intelectual da alma sopro do macaco desnudo depelado mas a audácia o topete a afronta afro do negro aquele um que responde retruca em legítimo ataque e de maneira sem papado na língua sem travas na e não engolindo mais a meia-idéia de que para um limbo tenha sido conduzido o racismo um limbo murando-o para que borrascas borra de negrada não o reduzisse a pó branco marmóreo um limbo que servisse servindo de abrigo ao racismo para então alguma vez torna e meia-volta re-tornar em visitação pública farejando o ar revigorado de novas folhas e disposto a não ver os negros espaços infinitos onde coruscam ínfimas estrelas
Escrito por ronald augusto às 18h38
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|