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o sem-versolibrismo
desde o alto modernismo, passando pelas vanguardas das décadas de 50/60 e pelo vale-tudo retrô-eclético da pós-modernidade dos anos 80, o verso e o ritmo já não são mais aqueles. o poema metrificado ainda sobrevive, mas como uma espécie de exercício de virtuosismo técnico. as vanguardas inventaram a “música sem-versista”: o poema como uma constelação suspensa na página. embora seja um exagero insistir em dizer que o “ciclo histórico do verso está encerrado”, parece ficar cada vez mais claro que o verso livre modernista - que a maioria pratica ainda imperitamente, sem fazer vacilar suas contradições e possibilidades constitutivas - experimenta um momento de estagnação. talvez isso se deva, em parte, a sua precoce canonização. aliás, sua defesa, em alguns casos, foi tão dogmática quanto a dos que o repudiavam.
o verso livre ainda tem alguma coisa a ver com o verso metrificado que pretendeu substituir. a grande diferença reside no fato de que o seu ritmo se aproxima mais do tom coloquial, da fala prosaica. mas, na raiz, ele ainda se presta ao sistema silábico de estruturação do verso.
por outro lado, a poesia contemporânea, herdeira tanto das conquistas dos modernistas históricos, quanto dos impasses das vanguardas de 50/60, dispõe de sua liberdade de linguagem para criar, agora, poemas em que a rítmica é impelida por uma sintaxe de elipses, e de onde se desprendem equívocos jogos de significados. uma música, por assim dizer, logopaica e indeterminada, feita de modulações resultantes de cortes em pontos que ocultam - ou mesmo abolem - a respiração versificatória ou frásica consagrada, cuja definição pressupõe o enclausuramento de um sentido completo.
Escrito por ronald augusto às 23h46
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