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wagner moreira, mg

esboço para transversos (coleção zaúm), 2003

 

poema parcelado em fragmentos. o procedimento construtivo parece dever seu impulso a algo da estética da colagem, mas não se pode afirmar isso categoricamente. o andamento, o ritmo, sugerem empréstimos a diversos étimos e poetas da tradição. entretanto, não salta aos olhos nem aos ouvidos aquela hibridez que marca a performática da colagem enquanto linguagem. transversos é produto de uma edição/decupagem ultra-refinada onde se passa (se transpassa) do próprio ao alheio, do eu ao outro, do individual ao dual do antagonista canônico, sem aquele truncamento oriundo da erudição do poeta, que tende a se apropriar da cena onde, em fim de contas, o poema é o protagonista. raros os momentos em que o leitor cult poderá dizer sem vacilar: “ah, aqui está uma citação!”. em transversos as coisas assomam estranhamente familiares. mas, aqui, esta afirmação não sugere nenhum tipo de objeção. wagner, desde um passado precipitado no chão duro do presente, inventa um poema mais classudo do que clássico. mas um poema clássico pode ser definido como um objeto verbal que se constitui sobre uma poética plagiotrópica. transversos transborda a retro, a velhaguarda opera mais nova do que o agora há pouco. neste livro, o verso é encarado como uma estrutura significante por si mesma, é encarecida sua independência, inclusive, perante a própria poesia. o verso como um meio, media. a poesia às vezes se utiliza dessa vertente sígnica de matriz oral. transversos põe à prova a partitura vocal do verso, música falada à boca pequena.

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sem nada já que me atraia nem nada que desejar

não quero gozo nem dor não quero vida nem lei

tenho a alma feita pequena livre de mágoa e de

dó não quero nada do acaso senão a brisa na face

sou já o morto futuro

eu vejo-me e estou sem mim

por isso escrevo em meio

do que eu devera ser - muro

eu não tenho filosofia: tenho sentidos

como um pedregulho enorme

e penso-o vendo e ouvindo

porque eu sou do tamanho do que vejo

o essencial é saber ver

e não tem sentido nenhum

porque o único sentido oculto das cousas

é a curiosa sensação de encher a noite enorme (...)

 

(excerto de poema de transversos)



Escrito por ronald augusto às 11h54
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