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cruz credo!
“Ninguém sentiu teu espasmo obscuro/ (...) / O mundo para ti foi negro e duro”. Estes versos, do soneto “Vida Obscura” (Últimos Sonetos,1905) bem poderiam servir de epitáfio à memória não só do escritor negro. Por certo, também evocariam todo um elenco de artistas que viveram, cada qual a seu modo, vidas que poderiam ter sido e que não foram. Vejamos alguns exemplos: 1. Edgard Allan Poe (1809-49), poeta norte-americano, patriarca do simbolismo que influenciou decisivamente a poesia de Baudelaire - que por seu turno influenciaria Cruz e Sousa - e Mallarmé; Poe, filho de um casal de atores pobres e famélicos, foi adotado por um gentlman do sul dos Estados Unidos. Não obstante este lance afortunado em sua vida, tratou de findar os seus conturbados dias, bêbado e miserável em meio a sarjeta. 2. François Villon (1431-?), “por muitos, considerado o primeiro poeta moderno da França” (P. E. da Silva Ramos); foi um homicida e ladrão, e por pouco não acabou condenado à forca; viveu largo tempo no exílio e mais outro tanto às ocultas no submundo da marginalidade. Ezra Pound compara-o a Dante. 3. Vielimir Khlébnikov (1885-1922), um homem sem a menor aptidão para as coisas práticas e sensatas da vida, viveu quase sempre à margem dela mesmo tendo concluído (não se sabe como) os estudos formais; inventor da poesia russa moderna. Uma espécie de homeless que “morreu de fome em santalov” (Haroldo de Campos) com a cabeça repousada sobre um travesseiro de manuscritos.
Escrito por ronald augusto às 16h10
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o poeta gongórico da ilha do desterro
“Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! Porque és a escalpelante ironia da formosura, a Sombra da aurora da carne, o luto da matéria doirada ao Sol...” Eis aí, talvez, o indispensável Cruz e Sousa expondo - a sua maneira ou a quem tiver olhos para enxergar - o âmago daquilo que alguns estudiosos de sua obra consideram a “nota brasileira” do seu simbolismo, a saber, a condição de negro. Este recorte metonímico do poema em prosa “Psicologia do Feio”, que integra o livro Missal (1893), dá uma pequena amostra de quão abrangente é o estrato semântico a movimentar os dilemas e estilemas crítico-criativos de Cruz e Sousa. O Feio representa, a um só tempo, vetor ético e estético. O poeta opera com uma variante do motivo do artista maldito que vai se desdobrar no demiurgo algo monstruoso - porque dotado de “energias superiores e poderes excepcionais” que, no extremo (húbris), transformam-se em verdadeiras ofensas contra o senso comum -, ou ainda, no visionário inconveniente, cujas revelações, cedo ou tarde, desestabilizam a ordem sócio-cultural.
Escrito por ronald augusto às 16h03
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