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axévier, contralamúria

 
            Linguagem de perturbante experimentação, uma poesia de invenção como a de Arnaldo Xavier (1948-2004), pode ser examinada não só no que toca à estranheza da fissura aberta por ela em partes ou no corpus de determinado sistema literário. Vale dizer, dentro de um traçado de rupturas inaugurado pelo alto modernismo e que, desde então, parece ter se constituído no cânone da contemporaneidade, o que Arnaldo Xavier injeta de novo em tal corrente sangüínea? Temos aí, um ponto. Por outro lado, este exame nos permite compreender também um pouco do caráter e das imposturas desse sistema mesmo que, desde sua condição normativa e dogmática, manteve ou mantém, com relação às transnegressões de Arnaldo, uma atitude, no mínimo, defensiva.
(...)
            A bossafro da poesia verbal e não-verbal de Arnaldo Xavier questiona, às gargalhadas, a dimensão estrita e estreita da poesia dos seus pares, onde se verifica a tolerância pós-moderna a limitar-se com o politicamente correto, fusão que, ao fim e ao cabo, resulta em puritanismo de fast thinkers. Arnaldo, intelectual e militante negro (em sentido forte), isto é, avesso a qualquer tipo de afundamentalismo, não professava a profissão do líder galvanizador. Uma figura possível para o paraibano Axévier é a do autor cuja obra e reflexões críticas estão tensamente imbricadas no debate referente aos dilemas de uma vertente negra na literatura brasileira. Mas o “odi et amo” de Arnaldo Xavier com relação a esta questão, se define mais por uma atitude problematizadora e metalingüística do que por uma afirmação concludente e, de resto, interessada em legitimar tópicos identitários por meio de uma prática literária entendida como testemunho de verdade étnica. Para Arnaldo, literatura negra é um debate que não deve ser lacrado, assim, às pressas. Exceto, talvez, do ponto de vista acadêmico, é algo que não tem de ser resolvido. Um poema de verdade não admite solução.
(...)
             Ao propor novas expressões negras, numa espécie de transe intertextual onde colaboram tanto a logopéia de Muniz Sodré, quanto a fanopéia de Spike Lee, Arnaldo propõe, em fim de contas, novos e vastos pensamentos sem fios. Com efeito, sua poética repercute no seu pensamento conferindo-lhe um viés experimental, inoportuno e negativo. Algo vivo. Axévier era o dissenso via intersemiose, o desarraigamento de si, o solapar das evidências ferreamente construídas sobre retóricas da identidade, não raro erísticas, e, por sua vez, pavimentadas por tensões históricas retidas num pano de fundo utópico. Arnaldo torceu o gasnete à eloqüência pictórica do conteúdo, suas palavras exorbitaram iconicamente o contorno dos sintagmas, viraram desenhos sintéticos do seu pensamento-arte.


Escrito por ronald augusto às 01h26
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in memoriam

dois poemas de arnaldo xavier, do livro LudLud (1997), seu último trabalho publicado.  é essa a espacialização. e os negritos estão onde ele os deixou. ninguém mexa neles! 
 
 
subsenhor               No altar de cera             o sorriso do bode sem
cabeça                            Assunção de sagrada cauda sangre furtiva
semente                   O adorado tilinta nervoso                     no pires
 
_________________________________________________________
 
 
subsenhor               Ao lado uma árvore          procura entre suas folhas
um endereço         Enquanto a sombra decepcionada                  retorna
da luz
 
 
______________________________________________________________
 
(poema pós-coma, sem título. inédito.)
 
 
Ao redor
A nudez
Do Olho cego
O peso do fogo
 
Pela miudez
Do Grão de cinzas
O sagrado
Sangra
 
A tristez
Estranha dor
Do roedor
Da ovelha
Da vez
 
Embora curva
A Bala torta
Nuvem turva via ave
Resolva
Bater em outra porta
 
arnaldo xaviér
SP,1998
 
 


Escrito por ronald augusto às 10h05
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