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o buster keaton da poesia
BROSSA AO PÉ DA LETRA(*)
Ao contrário do que acontece com a maioria dos escritores e poetas cujos percursos textuais denunciam com o passar dos anos uma nítida tendência à acomodação – e que devido a tal situação, mais se mostram merecedores de prêmios e comendas –, há uma outra linhagem de criadores que não acompanha este fluxo até certo ponto entrópico. Pode-se dizer que os espécimes de semelhante linhagem preservam, a contragosto do solo, incorruptíveis sua vitalidade e juventude.
Enquanto os primeiros baixam a guarda a partir do momento em que chegam às portas da “impudente idade do bom senso”, os segundos lesam a regra e passam a encarar a tradição menos como coisa herdada do que como conquista permanente (Juan Ramón Jiménez). E desde o irredutivelmente pessoal de suas propostas estéticas estabelecem, por assim dizer, uma tradição de ruptura. Enfim, eles conservam intactos dentro de si o jovem poeta e sua ininterrupta curiosidade. A propósito disso, Ezra Pound propõe o seguinte: “Quando a curiosidade do escritor morre, ele está perdido – ele poderá fazer não importa qual acrobacia, mas nada escreverá de vivo se a sua curiosidade estiver morta”.
Numa lista provisória e prospectiva de representantes deste grupo de artistas que não se deixam apanhar pelos estados frouxos da maturidade amortecida, poderiam ser incluídos, por exemplo, Bob Brown, Pierre Garnier, Edgard Braga e, ainda, Manuel Bandeira e Murilo Mendes (ambos com ressalvas). Entretanto, o meu cabeça-de-chave seria o poeta catalão Joan Brossa (1919-1998), de todos o que menos se aferra à figura do sujeito beletrista.(...)
O poema transversal de Joan Brossa se projeta como protéico ser de linguagem. Agora, o poema se presentifica como objeto, logo depois é traço visual, noutro lugar muda em dactiloscrito. Não raro, a metamorfose do poema se alarga em anamorfose quando, por exemplo, no poema-objeto “Kembo”, nos deparamos com um “relógio” de seis ponteiros, ou, ainda, quando Brossa inventa a (sua) “Roda” descaradamente quadrada. Forma e função se dissipam. O objeto é lavado, escovado de si mesmo. Mas, a deformação radical operada por este artesanato equívoco, visa muito mais o âmbito semântico do que a materialidade ludibriada conquistada para o objeto. Por este motivo, me arrisco a dizer que estes poemas-objeto, a rigor, não participam do conceito de objeto trouvé, muito embora se possa aventar alguma afinidade entre Brossa e Duchamp ou denunciar ressonâncias surrealistas em sua poesia.
Na verdade, o poeta trabalha o objeto-clichê. Signos do banal: o copo, o martelo, a lâmpada incandescente, o relógio, etc. Através de um rasgo metafórico, espécie de “sorriso sem gato” carrolliano, Brossa desloca o objeto-clichê de sua prisão redundante e o oferece ao apetite do leitor-fruidor como signo aberto ao investimento de sua parcela de pensamento. Mesmo que Joan Brossa se refira aos poemas-objeto como poesia háptica, nossa relação com eles se dá mais pelo lado mental do que pelo lado corpóreo ou físico. As transações são fortemente intelectuais. Então, tudo é símbolo? Devagar com o andor. O objeto-clichê brossiano problematiza esta questão sem chegar, contudo, a uma conclusão decisiva. Para começar, às vezes um charuto não passa de um charuto, isto é, a conotação (viés de leitura que se produz a partir de um dado repertório) depende mais do receptor do que do emissor. O objeto-símbolo não é portador de um manual de instruções capaz de levar o receptor a uma conotação pré-determinada.(...)
Agora com vocês, para terminar, Joan Brossa por ele mesmo: “Estes versos, como/ uma partitura, não são mais/ que um conjunto de signos para/ decifrar. O leitor do poema/ é um executante (...)”. E, na íntegra, o poema “Peixe de Cera”: “Por não ter escrito o poema/ o leitor fica sem saber/ em que poderia consistir este/ peixe de cera”. (ronald augusto)
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(*) A versão integral desse texto foi publicada no caderno Cultura de Zero Hora, em 24/12/2005.
Escrito por ronald augusto às 17h56
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(ronald augusto)
Escrito por ronald augusto às 16h33
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