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por uma leitura tresloucada!

a leitura equívoca; a leitura à revelia das boas ou más intenções do autor; a leitura que "está andando", que manda o autor passear; a leitura feita em decúbito dorsal ou ventral; a leitura que se faz na rede, pênsil entre uma árvore e outra, que se faz no ônibus, no metrô; a leitura que se faz (se desfaz) quando não se tem um tostão no bolso, quando se padece de uma afecção respiratória; a leitura que se faz quando se está às turras com a patroa ou de bem com o seu bem, etc, etc, etc.
 
enfim, qualquer leitura --e seria injusto dissociá-la das mínimas circunstâncias que nos estimulam a moldar e cristalizar um sentido para esse dispêndio de atenção exigido pelo poema, que é inextrincável da perturbação do instante precário--, qualquer leitura tosca é preferível à exegese consagrada e consagradora do "controle institucional da interpretação" (frank kermode) que, às vezes mais, outras vezes menos, é obra tocada pela academia, pelos jornalistas e colunistas da imprensa especializada, pelo mercado editorial e pelos intelectuais medianos ocupantes de cargos públicos ou de instituições privadas aperentemente interessados em questões culturais.
 
"só a antropofagia nos une" (oswald de andrade). a tresleitura --o autor de serafim ponte grande é o pai dela-- é uma salvaguarda contra a presunção de uma interpretação teorizante e toda-poderosa, que reifica o poema de modo a fazer com que sua existência se justifique apenas para servir às necessidades desta mesma interpretação, refém de uma série de interesses e imposturas.


Escrito por ronald augusto às 10h15
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contraveneno: poesia boa

recentemente li o livro poesia vista, do poeta catalão joan brossa (http://www.joanbrossa.org) (1919-1998). publicação da amauta editoral e da ateliê editorial. a velhaguarda da melhor vanguarda fazendo maravilhas com o mínimo de recursos. nada de computadores e distorções de letras, essas bobagens típicas de uma confiança naïf nos poderes podres de maduros que marcam a ultramodernidade narcisista. vírus da virtualândia.
 
brossa, com seu sorriso carrolliano, é mais dada que surreal.  chuta o saco diáfano da seriedade "artística".  diz que nossa época não é multimídia, mas multimerda. seus poemas recusam abordagens conclusivas ou explicações pretensamente corretas. sua poética vai a contrapelo da voga contemporânea, no sentido em que não dá a mínima para a necessidade de guarda-costas travestidos de curadores ou de simplórios mediadores que sempre têm uma dica de "leitura" com vistas a acalmar a angústia do observador frente àquela obra-cacto, intratável. seu humor esturricado, de poucos amigos emulatórios, tem mais a ver com buster keaton do que com charles chaplin.
________________________________________________
 
Joan Brossa (poema de Paulo Fabris)

a roda
arrasa
com o quadrado
da hipo_temida
            musa
 


Escrito por ronald augusto às 17h51
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dar aos pés astúcias de mão?

não tomba nem emudece o sol
do mundo conhecido    embora
todas as vielas do mercado
financeiro se cubram de sombras
 
enquanto obduram a todo transe
quer pela profundeza
da forma quer pela
formosura do fundo    pontos
que distinguem seus enunciados 
(não recusando mesmo uma mãozinha
sequer apalpadelas nas costas
dos moribundos que os antecederam) 
nossos governantes    alastrada
fila de infelizes
 
na hora tranqüila
em que os bebuns da quebrada
se põem a beber    tentam mas
não alcançam
desfazer com mãos leves
e pensamentos não esmerados
o que os nossos heróis
indecalcáveis feito deidades    fizeram
e fazem com os pés
 
(ronald augusto)
 


Escrito por ronald augusto às 12h55
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