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uma nota irritante
Donaldo Schüler, no seu livro A Poesia no Rio Grande do Sul, apresenta-nos três poetas que, segundo o seu ponto de vista, figurariam como os representantes locais do movimento geral das vanguardas de cinqüenta e sessenta. São eles: Pedro Geraldo Escosteguy, César Pereira e Hugo Ramirez.
O ensaísta começa a sua defesa pelo poeta-pintor: "Escosteguy rompe a resistência contra o vanguardismo visual que o Rio Grande do Sul oferecia por volta de 1960". Comenta que o poeta, para conseguir realizar tal proeza "teve que transferir-se para o Rio de Janeiro, um dos núcleos da agitação". E arremata: "Em Porto Alegre, não teria levado o pendor para a objetividade e a precisão além do provincianamente tolerável". O relativo sucesso de Escosteguy no "exterior" - teve seus quadros expostos no MAM e nos anos 60/61 colaborou na revista O Cruzeiro - deixou os seus naturais embasbacados. Era preciso dar passagem ao jovem talento. Schüler prossegue fazendo considerações acerca dos trabalhos de César Pereira e Hugo Ramirez, procurando com grande erudição ressaltar-lhes os indicativos, as linhas de força que definem o fenômeno do texto criativo de ruptura. Mas, em que pese a boa vontade do crítico, nenhum dos três poetas, a meu juízo, encarna, ou incorpora, o feeling do vanguardista intrínseco. Grosso modo, o que se observa em todos eles, é uma árdua mise-en-scène experimental, efeitos de superfície, alarmismo tíbio e moralizante no que concerne ao modo duvidoso com que as vanguardas se debruçavam sobre "os destinos do Ser", inclusive porque o discurso aporético delas, quando levado até suas últimas conseqüências, tende a eludir o que conhecemos por significado - e isso seria o Nada, "ou quase uma arte", acrescentaria Mallarmé. Para os nossos vanguardistas, a poesia ainda é mistério e enigma. Não é objeto, poesia-coisa. Em síntese: sob a frágil capa de procedimentos estilísticos que remontam na verdade às vanguardas do início do século passado - palavras em liberdade, colagens à la Apollinaire -, subjaz um pastiche de humanismo, uma notação metafísica ready-made, adversária da revolução eletro-eletrônica.
Acompanhando de perto os passos de Donaldo Schüller na análise da obra desses poetas, podemos flagrar - embora não tenha sido a intenção do crítico -, por assim dizer, os pontos fracos, os passos vacilantes com que cada um a seu modo, ingressou nesta agitação. Sobre Escosteguy, anota o ensaísta: "Coerente com o seu projeto de impedir a desumanização da arte, Noite de Balões, absorve as inquietações do homem, que derivam para as indagações do destino". Sobre César Pereira: "Condena no concretismo (...) o cerebralismo que no privilégio à objetividade elide toda ingerência subjetiva". Quanto a Hugo Ramirez, basta lembrar que "sua personalidade poética é resultado da confluência de Sileno, Adão e Orfeu". Água na fervura, águas passadas.
(ronald augusto)
Escrito por ronald augusto às 13h23
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