A quase mítica história da Biblioteca de Alexandria se presta muito bem como metáfora ou alegoria às condições de existência de um cânone incondicional no interior da modernidade multifária. Senão, vejamos. Alguns caracteres-atributos, tais como: o centralismo, a reputação de guardar livros capazes de conceder poderes ilimitados ao seu portador, a pretensão de ser o depositário de um tesouro universal, etc., descrevem sumariamente tanto a Biblioteca quanto o cânone pavimentado pela intenção dogmática.
Ao longo da sua existência, a Biblioteca de Alexandria sofreu sucessivas pilhagens. Em outras palavras, nenhum cânone é inexpugnável. Leituras irreverentes o tornam suscetível a acréscimos e expurgos, isto é, poroso à escolhas que se reportam necessariamente a um trecho histórico determinado: intervenções crítico-valorativas de ordem sincrônica. O cânone não é mais aquele.
E chega o dia em que a Biblioteca dos sonhos e pesadelos borgeanos é devastada pelos árabes, considerados os conquistadores bárbaros àquela altura. A divisa revisionista deles: "não há necessidade de outros livros, senão d'O Livro, vale dizer, o Alcorão. O cânone substituto, mas que "ainda tem alguma coisa que ver com aquilo que pretende substituir" (Hannah Arendt).
Um cânone totalizante, universal, vantajoso (para quem?) a ponto de poder ser aplicado em qualquer tempo-espaço, é uma fantasia imperial que não satisfaz mais à nossa errância bárbara e não-identitária, meio e fim de uma tecnologia intersemiótica e de mestiçagem cultural. Somos revestidos, a um tempo, de iconofilia e iconoclastia.
Portanto, me parece que um destino análogo ao da mítica Biblioteca está reservado a todo cânone assentado sobre presunções messiânicas. (ronald augusto)