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poesia-pau


a perturbação no texto cursivo 2

reproduzo a contragosto um comentário já publicado aqui no poesia-pau:
 
"para o leitor, o poema se apresenta, numa primeira aproximação, como que vertido em língua estranha, mas ao mesmo tempo remotamente familiar. na comunicação poética, a imagem da leitura como operação tradutória se impõe de modo decisivo. a comunicação poética pressupõe certa dose de intraduzibilidade, dilema que, por outro lado, se resolve no momento em que o leitor-poeta assume a responsabilidade pela co-autoria daquele texto, por meio de um gesto de interpretação livre. tradução-leitura envolvente convertida em transcriação (haroldo de hampos). o leitor produz, a partir do seu desejo de linguagem, uma versão que mais se presta a uma di-versão do que a qualquer outra coisa".
 
pois bem, uma figura possível para a minha idéia de leitura criativa, irmã siamesa da operação tradutória, é aquela da leitura que se faz com o lápis em punho. o poema assediado por meio de rasuras e escarificações à margem da "mancha gráfica" da página. leitura como reencenação mental de uma signagem poética particular.
 
não se trata da leitura física apenas, fonema a fonema, palavra a palavra, sintagma a sintagma, etc., que resulta, segundo schopenhauer em mera repetição (à boca pequena, em silêncio ou à viva voz) do processo mental do autor. leitura obediente.
 
a leitura criativa, "a lápis", de esboço e estudo, interessada e interessante, de fato re-inventa o texto de partida, inclusive no aspecto sintático. re-inventa-o no sentido em que ele é proposto noutros termos no eco ou no oco da algaravia do intelecto, "lugar" produtivo da réplica futura. se o como e o-que-dizer são inextrincáveis, então, quando a leitura "indisciplinada" desentranha uma pluralidade de sentidos, também traz à tona diferentes modos de se agenciar os elementos materiais da linguagem: identificação fundo-forma.
 
portanto, o poema do poeta continua quieto, ali, na página do volume caprichoso. nenhum crime de lesa-autenticidade foi perpetrado. mas, em contrapartida, o leitor criativo agora leva entesourado em seu espírito uma rosácea de formulações possíveis para esse mesmo poema. duplo virtual, proliferante e indecidível, vazado noutro código e em suporte rarefeito. leitura-experiência. (ronald augusto)



Escrito por ronald augusto às 11h23
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(1) poemas inétidos de josé antônio silva

Quatro mil mortes morridas


Quatro mil mortes morridas

quatro mil mortes matadas;

tivesse eu mais uma vida

deixava as contas desempatadas.


Quatro mil mais quatro mil

é minha bagagem de vidas

(das matadas e das morridas)

- por que não mais oito mil

pra serem agora vividas?


Não: mais uma vida é o que peço

ou essa mesma mais comprida;

a fieira de dias que meço

não basta para minha lida.


A modo de dizer mais tempo

recordo os filhos por criar;

sugiro minutos mais lentos

e encho o pulmão de ar.


Você que me ouve sentado

levante pra essa escutar:

eu só vivo desarmado

porque me ensinei a cantar.


Não me solte o cão danado

na depressão do terreno.

Já enfrentei esse fado

- e a vigília não “atënuo”.


E vá-se embora seu coisa

que aqui não é seu lugar;

meu jardim tem pouca rosa

mas espinho não vai vingar.


E agora me despeço

respingando sol e chuva

(e disso também o avesso)

porque essa vida – eu lhe garanto –

me serve como uma luva.

____________________________________________________

 

avanço, saltando por entre escolhos cotidianos, através desses poemas do josé antônio silva. "urbanística do ar": a cidade sucateia os mitos retrógrados da poesia. noturno/diurno do tietê. os signos, os símbolos do triunfo e da derrocada sempre presentes na próxima esquina, avassaladores. mas ao mesmo tempo a fruição do olhar em travelling escrutinando o efêmero da megacidade que cresce e se anula enquanto devora adjacências. poema "pé-no-asfalto", duro e bom.
 
"quatro mil mortes morridas" : o domínio, sem afetação, do metro e da rima. o cabralino de quem atravessou o pernambucano por dentro, deglutindo suas vísceras e que, portanto, é capaz de recriá-lo ao invés de emulá-lo servilmente. cabral é uma pedra no meio do caminho de qualquer poeta. não faz bem evitá-lo com a intenção de preservar a ilusão de uma "voz original". ao fim e ao cabo, isso é que provoca a tal "angústia da influência". mas josé antôinio silva vai com gana e dá o salto tigrino. cabral está mais perto do "literário". aqui, zé antônio põe à flor da linguagem o tom coloquial. mas um coloquial  autocorrosivo, abrasivo e pósmoderno, isto é, projeta um pano de fundo que não é mais o sertão nem a selva das saúvas macunaímicas, é o mundo cosmopolita, fútil e útil. imensa mandala deletéria de discursos conflitantes. a terra de todas as cidades e linguagens.  vidas e mortes. (ronald augusto)
 
José Antônio Silva escreve de tudo, inclusive poesia. É jornalista profissional. Tem cinco livros lançados - "Lá vem o que passou" e "Tiques & Taques" (poemas); "Diabo Velho" e "O nome do Fuinha" (novela e contos, respectivamente) e "A impressão da cultura" (artigos), afora participação em antologias e coletâneas. Nasceu e vive em Porto Alegre.
 
post-scriptum:
noutro dia publico "urbanística do ar".


Escrito por ronald augusto às 12h04
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a perturbação no texto cursivo

no momento da leitura criativa (liberdade da leitura), o leitor re-inventa, quer em termos sintáticos, quer em termos semânticos as vacilações e o esforço implicados no ato da realização do poema.

ou: as rasuras, os negaceios, enfim, as incertezas inerentes ao processo da interpretação são, por assim dizer, pulsões de alguma maneira equivalentes àquelas experimentadas pelo poeta na intimidade indecorosa e errática do gesto criativo.



Escrito por ronald augusto às 09h34
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