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acima dos emurados do lugar

a poesia persistente e resistente de oliveira silveira
 
desde que comecei a escrever de maneira mais crítica sobre poesia (de 95 para cá), o percurso textual de oliveira silveira tem sido objeto do meu interesse. cabe lembrar que mantemos um diálogo fraterno já há 25 anos.
 
oliveira silveira despreza a complexidade do "literário" convencido e convencional em benefício de outra espécie de complexidade, a saber, ele credita suas forças numa secura antes espartana do que cabralina. oliveira é capaz de uma contensão e de uma elegância que só me permito associar à sempiterna e serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas.
 
a gestalt severa e exata da poesia de oliveira, sua brevidade grave e algo epigramática (considerada, se quisermos, a partir da perspectiva que reconhece a vertente negra na literatura brasileira) é emblema de ceticismo tanto em relação à ética do homem branco, quanto ao viés estético referendado pelo meio literário, representação especular, mas com suas particularidades, dos conflitos étnicos e sociais abrigados sob o arco ideológico.
 
a poesia de oliveira silveira se nutre de uma salutar desconfiança a propósito do poder de comunicação da metáfora. silveira parece se dar conta de que a naturalização da metáfora, sua precedência, por assim dizer, sobre outros elementos da função poética da linguagem, encobre um barateamento expressivo mesclado a uma afetação kitsch que está a serviço da mundanização do poeta e sua inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada vez mais chapa-branca. felizmente, entranhada em sua poesia elegante há a dose essencial de antipoesia.
 
os poemas de oliveira silveira continuam, portanto, críticos e, a cada dia que passa, menos alambicados. um desaforo calmo aos medianeiros da metaforização indecorosa. os versos de sua linguagem produzem uma estranha delicadeza que vela maliciosamente o cacto áspero, intratável e forte. (ronald augusto)
 
2 poemas de Oliveira Silveira
 
CHARQUEADA GRANDE
 
Um talho fundo na carne do mapa:
Américas e Áfricas margeiam.
Um navio negreiro como faca:
mar de sal, sangue e lágrimas no meio.
 
Um sol bem tropical ardendo forte,
ventos alíseos no varal dos juncos
e sal e sol e vento sul no corte
de uma ferida que não seca nunca.
 
ANTILHAS
 
No mapa
das Antilhas
mares
que se entulham
de ilhas.
 
Nas ilhas
das Antilhas
gente negra
que pontilha.
 
E quem chega
à escotilha
vê bater a miséria
nas quilhas.
 
(poemas extraídos do livro Roteiro dos Tantãs, ed. do autor, 1981)


Escrito por ronald augusto às 15h59
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um livro bom atrás do outro

mauro faccioni é autor de helenos, um dos melhores livros de poemas do remoto ano de 2000. acontece que vou tratar, aqui, de duplo dublê, outro livro impressionante lançado por mauro apenas (!) dois anos depois de helenos.
 
se em helenos, mauro se apodera do "eco épico", isto é, transfigura em música verbal as ruínas hieráticas de um epos cuja narrativa não é prerrogativa dos deuses, em duplo dublê, o mergulho na húbris da desventura humana torna-se mais radical. a dissolução e o dionisíaco exasperante que atravessam as páginas de duplo dublê, constituem a contraparte problematizadora daquela nudez ática e beligerante dos afirmativos heróis de helenos.
 
como mateforiza o fotograma da capa de duplo dublê, neste volume trata-se de dar ouvidos ao mortal que "lixa o céu seco" com seu brado assombrado. nos encontramos (depois de muito errar?) à orla de uma borrasca aniquiladora: o trágico. mauro parece nos dizer que os musculosos e astutos prodígios de aquiles e odisseu (personas que percorrem seu helenos) nada mais são do que um glamour fugaz a revestir uma polpa que já apodrece. e esta polpa vem a ser a tragédia. tragédia como lance entrópico que não desconsidera a incisão do acaso. ruptura de tendões e fibras; a inteireza física e moral no extremo de seus tensionamentos.
 
estamos condenados ao desgaste, a estados cada vez mais indiferenciados e frios. pode a tragédia vir, encontrará cada coisa fora do seu lugar. por outro lado, os poemas de duplo dublê presentificam em sua linguagem menos um fado do que um fardo. a questão, na verdade, não discute se devemos ou não lidar de modo resignado com o destino inexorável matutado pelos céus (fado) em prejuízo da nossa vontade de mortais, mas, antes, o reconhecimento (fardo) dessa ordem desagregadora que, ao fim e ao cabo, pavimenta com um sinal de distinção os rumos tortuosos por onde se arrasta o sujeito herói em condição transeunte e que, de uma vez por todas, já não se assemelha mais aos deuses.
 
o (re)conhecimento, a estupidez do desígnio: fardo. meu duplo dublê: o esforço, via linguagem, para tentar impedir, retardar ou, quem sabe, refletir sobre o destino pelo seu lado figural, como imagem de um processo. dobrar o fado (por via da beleza?), vale dizer, num impulso de interpretá-lo, emprestar-lhe sentido, em suma, todo um concurso de signos agenciados para estancar a tendência entrópica e a dissolução. encapsulá-la (a tragédia-entropia), portanto, na palavra grega sema que admite os sentidos tanto de "signo" como de "sepultura".
 
o duplo dublê reinvindicado pelo meu desejo de linguagem, dobra a carne que se obstina em apodrecer e entristecer. duplica um corpo no outro. cede ao prazer do poema e ao poema do prazer como resquício de pornografemas que enganam o gozo do qual nos ressentimos. (ronald augusto)


Escrito por ronald augusto às 08h27
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poema de mauro faccioni

A STAR IS BORN 

assim, vinda de dentro do seu reduto

         forte com o que o conhecimento lhe deu

                   resolveu ser famosa acima de tudo

 

e com sessenta e quatro, número mágico na cabeça

         traçou seus planos para oito dias de breu

                   dizendo ao seu belo corpo me obedeça!

 

oito homens cada dia, em oito horas comerciais

         posando para fotos trepou, chupou, bebeu

                   os olhos azuis sempre pedindo mais

 

até que enfim o ciclo todo estava posto

         e numa última boca o seio pequeno meteu

                   dizendo só me falta um tapa no rosto

 

sessenta e quatro fotos na internet

         monitorando agora aquele que veio e se escondeu

                   vagando à procura dum boquete

 

e então ela nasceu – astro silencioso no universo –

para milhares, com o prazer que sua imagem deu

                   doce bebê jorrando – exposto num berço frio

 

      (poema extraído do livro duplo dublê, ed. letras contemporâneas, 2002)



Escrito por ronald augusto às 08h26
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resenha em dois tempos II

  BALA: A "BRICOLAGE" POÉTICA DE LUIS TURIBA (2)    

             Neste livro, Turiba investe na tematização dos “tempos híbridos”. De minha parte, gosto de vislumbrar em seus poemas a tentativa de fazer o tempo experimentar sua húbris: este se converte em signo de um presente eterno que se anula, estanca, já mudado em espaço, território. Um aqui mais do que um agora. Em Bala, o presente encarna um lugar sem margens, a arena de mundos possíveis que se entrechocam, círculo, a um tempo, vicioso-virtuoso.

            O conjunto de poemas contidos entre as capas de Bala, se resolve numa épica fragmentária. Encenação de migrações, cruzamentos de gentes e culturas. Mas, atenção: encenação, esta, plasmada no procedimento mesmo da linguagem. Poesia permeável à falação do mundo. Turiba, portanto, também sabe se contrapor, quando necessário, ao Mallarmé da esterilidade que dizia fumar apenas para lançar um pouco de fumaça entre ele e o mundo. Bala, ao contrário, se mostra fecundo, porque atravessa e é atravessado pelo cinema falado dos “corações e mentes da corrente planetária”.

            Um desdiscurso-livro ou um livro de transviagens. Verdadeiro bloco de anotações e conotações corrosivas num job de campo sobre o acabar-começar de ideologias e culturas díspares em processo de fusão. Bala, fabulação cujo nascedouro-sumidouro localiza-se no vocábulo-idéia sempre fora do lugar, que enche as medidas, para desespero da mentalidade logocêntrica. Segundo Turiba, com os poetas-bebês, “desaprendemos a logística da sintaxe e criamos as tais desequações lingüísticas que ficam zoando por aí”.

 

            Neste livro, tudo está no seu lugar e tudo transborda, graças a Oxalá. Rio em estado de carnaval mastigando suas margens, o texto desse Luis Turiba heraclítico parece querer inundar a vida de linguagens, com a intenção de que ela emerja, exsurja sob outra roupagem, dessas águas sempre recomeçadas.

 

            De acordo com Décio Pignatari, um bom poema fala de tudo e de nada ao mesmo tempo. Por outro lado, o poema não é senão linguagem. A flor ausente de todos os buquês é a palavra flor. Turiba está ligado, ele sabe o que se esconde no avesso do poema, tanto que, em “Tecnotribos 2072” (pg. 97), cita a seguinte passagem extraída do livro O Arco e a Lira, de Octávio Paz: “O poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana”. Erosão e eros da linguagem, para Luis Turiba a poesia é uma ferida-fissura que não sara nunca. Mas, a “bala perdida encontra (o) coração solitário”, carga de fogo que afugenta o tédio por um breve momento.   (ronald augusto)



Escrito por ronald augusto às 13h43
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resenha em dois tempos

BALA: A “BRICOLAGE” POÉTICA DE LUIS TURIBA  (1)

  

            Antes de tratar do objeto desta resenha, isto é, o livro Bala, do poeta Luis Turiba, abro parêntese para uma breve rememoração (e como se verá mais adiante, não nos desviará do foco inicial), rememoração que diz respeito à alegria que experimentei ao me deparar com Bric-a-Brac, revista brasiliense dos anos 90 dedicada à poesia e às demais formas de arte.

            Com um design gráfico atento tanto à experimentação quanto ao mais alto padrão visual estabelecido pelas publicações do período, Bric-a-Brac chegava afirmando o ecumenismo quer no campo estético, quer no campo das idéias. Para exemplificar até que ponto se entrelaçavam em suas páginas a mestiçagem cultural e a vocação pan-semiótica, destaco algumas colaborações do número de dezembro de 1990: um poema de Haroldo de Campos; canção de Caetano Veloso: artigo de Paulinho da Viola; Antônio Risério levantando idéias “Para uma viagem poético-antropológica”; Carlos Ologunci jogando na mesa os búzios d’ “A influência africana no falar brasileiro"; uma seção de poemas visuais e, por fim, entrevista de Mário Quintana concedida à Alice Ruiz. Ademais, o conselho editorial da revista abrigava, entre outros, o bibliófilo José Mindlin e o poeta concreto Augusto de Campos.

            Bric-a-Brac se abria, portanto, ao traço forte da tradição viva e à troça da subversão permanente. Neste sentido, sua imagem, para um olhar de hoje, parece ratificar a tese de que as manifestações artísticas das décadas de 80/90 foram marcadas, grosso modo, por uma espécie de ecletismo retrô. Fecho parêntese.

            Muito bem. Mas, o leitor deve estar se perguntando a essas alturas, o que o poeta Luis Turiba tem a ver com isso? Tudo, meu caro. Bric-a-Brac foi concebida, editada e mantida por ele, e é de mencionar, ainda, sua participação na concepção das capas e na instigação de temas à equipe de colaboradores da revista. Luiz Eduardo Resende e Lucia Miranda Leão foram os outros editores.

            Mas, se Bric-a-Brac foi pós-moderna, isto é, dá-se a ler, agora, como signo e produto de uma época que entroniza o relativismo como polifonia, a poesia de Luis Turiba, não obstante lidar criticamente com ressonâncias desse estado de espírito, representa um deslizamento sobre a superfície desse e de outros ismos, retidos na sucessão conflitante de tempos e espaços. Com efeito, um poema também se define historicamente e esta devisa não é recusada por Turiba. No entanto, consciente da efemeridade da experiência presente, Luis Turiba lê ou re-inventa o mundo por meio de sua linguagem-lábia transtemporal. O poeta menos se arraiga no tempo do que o atravessa. À primeira vista, sua poesia coincide com o que parece ser: imemorial, bebe de águas egípcias; transatlântica, estabelece trocas entre o yorubá e o nheengatu; moderna; antropofágica; concreto-tropicalista, etc. A poesia de Bala parece-que, mas não se confina apenas a estes estilemas. Na verdade, salta, num passo de brincante, sobre tudo isso. Poesia do encontro Hermes-Exu, divindades do trânsito, do translado de signos, das línguas e dos escambos sócio-culturais. Poesia do cyberspace como holocausto aos deuses que presidem a zona de fronteira entre o aquém e o além-túmulo.

 (ronald augusto)



Escrito por ronald augusto às 08h41
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