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vinho&vinagre

é quase um lugar comum se dizer que o leitor moderno está condenado a um estado, não digo racional, mas, no mínimo, vigilante relativamente a uma "entrega incondicional" que se lhe cobrava até há bem pouco tempo, durante o ato de leitura. não obstante o conceito de leitura de prazer, o leitor de hoje é quase um especialista, um árduo degustador dos melhores ou piores vinhos: está apto a enfrentar qualquer desafio. nas mãos deste sujeito cultivado, amante da beleza difícil, as tortuosidades da poesia são superestimadas de maneira a fazer mais impressionantes suas qualidades intelectuais e sua hiperestesia. leitor decisivo. uma sorte de mentor e guia na selva selvagem da escritura criativa.


Escrito por ronald augusto às 13h21
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poesia é trampo, mesmo.

SEXTINA

enfio por fendas de linguagem
e signo senão córrego ao sol
rebanho de cabras sobre morros
verdoengos borrando à toa espaço
olho-os satisfeito no rosto
não me adiantam coisa sobre o dia

de amanhã talvez o mesmo dia
tatuado com nova linguagem
água crespa redobra meu rosto
faz a todos mal se mostra o sol
hábito sem tento ou tempo-espaço
comove astros e verdes morros

cílios de cirros cismam com os tais morros
(deste livro é a hora e o dia)
idéias me eriçam a espaços
irregulares umas linguagem
que toco outras trincam ao sol
aditam-me todas pregas no rosto

a moeda gira: verso-rosto
silvo silvestre me adula morro
a pele por pergaminho - um sol
que não me desse ventura - dia-
a-dia lambendo fel de linguagem
inundando ranhuras espaços

ressecos de espaço em espaço
pondo de lado sopapos rosto
adverso aos néscios da linguagem
cuspo em seus opúsculos desmorro
e cresço cada vez mais dia-
bolo sobolos fios do amor-sol

cara preta miro os bois do sol
gado olímpico frouxo no espaço
rio de baba até não haver dia
tombam todos à noite com o rosto
pegado ao traseiro entre morros
mugem meditabunda linguagem

 

SEXTINA
É um poema de forma fixa inventado no século XII,
provavelmente pelo trovador Arnaut Daniel. A sextina é
um espécime típico do know-how poético da Provença. A
forma da sextina se caracteriza por uma “magreza” de
expressão no que respeita aos recursos disponíveis ao
poeta. A extrema limitação de meios e a estrutura recorrente,
criam uma série de desafios a imaginação do poeta.

Vejamos: a sextina ortodoxa dispõe-se em seis
estâncias de seis versos  e um terceto final, espécie
de envoi. Os versos terminam  não em rimas
propriamente ditas, mas em palavras-rima que obedecem
a uma distribuição padronizada: a última palavra-rima
de cada estância se repete no final do primeiro verso
da estância seguinte. As palavras derradeiras dos
versos da primeira estância recorrem, noutra ordem,
sempre no fim das demais estâncias.



Escrito por ronald augusto às 16h36
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retaguardas

De acordo com os critérios da periodização literária, o ciclo das vanguardas abarcaria o período que vai de 1.956 a 1.968. Pois bem, num determinado ponto desse processo, explode o golpe militar. Os anos de chumbo. Como todos sabem, os turbulentos fatos políticos que o precederam e tudo o que se sucedeu imediatamente após a sua instauração, vincaram traumaticamente todos os debates socioculturais que perpassavam o momento em questão. E a série literária recebeu, obviamente, os estilhaços que lhe eram devidos. Chamado a posicionar-se perante tal conjuntura, o Rio Grande do Sul se transformou num exemplo de resistência - o Movimento Pela Legalidade conduzido pelo engenheiro Leonel Brizola permanece como um trunfo do populismo. A História estava acontecendo aqui. Mas o que importa mesmo é chamar a atenção do leitor para o que se segue. A tonalidade eliotiana dos nossos dilemas; "o cuidado de auscultar a natureza da nossa produção poética, fugindo ao engodo de pretender subordiná-la a tendências observadas além das nossas fronteiras",(grifo nosso); e, finalmente, a convocação a participação política, se embaralham de tal maneira que o produto resultante tomou a forma de uma reação conservadora diante das dúvidas impertinentes propostas pela poesia concreta. A vanguarda era alienada. A tradição sul-rio-grandense entendeu que tal poesia geométrica acabaria por "permitir que a técnica ocupasse o espaço destinado ao homem".

Donaldo Schüler, no seu livro A Poesia no Rio Grande do Sul, apresenta-nos três poetas que, segundo o seu ponto de vista, figurariam como os representantes locais do movimento geral das vanguardas de cinqüenta e sessenta. São eles: Pedro Geraldo Escosteguy, César Pereira e Hugo Ramirez.

O ensaísta começa a sua defesa pelo poeta-pintor: "Escosteguy rompe a resistência contra o vanguardismo visual que o Rio Grande do Sul oferecia por volta de 1.960". Comenta que o poeta, para conseguir realizar tal proeza "teve que transferir-se para o Rio de Janeiro, um dos núcleos da agitação". E arremata: "em Porto Alegre, não teria levado o pendor para a objetividade e a precisão além do provincianamente tolerável". O relativo sucesso de Escosteguy no exterio - teve seus quadros expostos no MAM e nos anos 60/61 colaborou na revista O Cruzeiro - deixou os seus naturais embasbacados. Era preciso dar passagem ao jovem talento. Schüler prossegue fazendo considerações acerca dos trabalhos de César Pereira e Hugo Ramirez, procurando com grande erudição ressaltar-lhes os indicativos, as linhas de força que definem o fenômeno do texto criativo de ruptura. Mas, em que pese a boa vontade do crítico, nenhum dos três poetas, a meu juízo, encarna, ou incorpora, o feeling do vanguardista intrínseco. Grosso modo, o que se observa em todos eles, é uma árdua mise-en-scène experimental, efeitos de superfície, alarmismo medroso no que concerne aos destinos do Ser, inclusive porque o discurso aporético das vanguardas, levado até suas últimas conseqüências, tende a eludir o que conhecemos por significado - e isso seria o Nada, "ou quase uma arte", acrescentaria Mallarmé. Para os nossos vanguardistas, a poesia ainda é mistério e enigma. Não é objeto, poesia-coisa. Em síntese: sob a frágil capa de procedimentos estilísticos que remontam na verdade às vanguardas do início do século 20 - palavras em liberdade, colagens à la Apollinaire -, subjaz um pastiche de humanismo, uma notação metafísica ready-made, adversária da revolução eletro-eletrônica.



Escrito por ronald augusto às 16h16
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lacunalacustre

A linguagem, no espaço-tempo do poema,

passa por uma brutal metamorfose

ao escolher o objeto – o escolho – que,

via sagração, acabará por romper o

molde do banal, ou do profano. Por sua vez, 

o objeto-escolho,

à beira do abismo da linguagem,

é lavado de si mesmo. Vale dizer,

ele experimenta a sua anamorfose.

Ricardo Aleixo "dá um nome novo" à poesia:

Nanã. E aceita a sua língua(gem) ferina,

feminina. "Senhora da alvura":

o silêncio branco do papel (a água escura),

onde "um poema começa e

por onde ele termina".

 

Nanã

Mãe sem marido,
avó do universo.
Senhora da alvura.
Nanã, a de rosto
sempre coberto.
Ó poderosa
dona dos cauris,
filha do grande pássaro
Atioró.
Água.
Lama.
Morte.
Mãe do segredo
do mundo.
O úmido.
O que flui.
Água.
Lama.
Filhos.
Teus gestos
lentos
no fundo
da água escura.

(Ricardo Aleixo)

 

 

 



Escrito por ronald augusto às 13h18
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do confissões

LÍNGUA IMPERIAL MAL PASSADA


escarnecer per parávoas encubertas
refurtar por meias fintas analfabetas
indiscretos abertos dígitos que

tenham ajam dois
ou mais dous (colhoneira) entendimentos
para que velido vilagre

pera lhe (ho)lo nonão entendam
ligeiramente entenderem se entendentes
de imediato para que não entesourem

com lixeireza e vá que encareça
e desy aborreça sem çopegar cabeças
de prego sem cós em cozinha voodoo

cristas que logo van eno prego


LÍNGUA IMPERIAL MAL PASSADA
Humor não-branco. Variações paródicas em torno de uma
descrição feita pelo Prof. Rodrigues Lapa (estudioso
da literatura medieval  portuguesa)  acerca do
processo construtivo de uma cantiga de escárnio ou de
maldizer em moldes ortodoxos. A gênese do poema está
na desconstrução de um pequeno excerto dessa
descrição. De início, optei por um procedimento
simples, do tipo palavra-puxa-palavra, amplificando e
distorcendo o fragmento do crítico lusitano por meio
de micro-interpolações de significantes e
significados. Assim, são agenciados, no poema,
compósitos verbais pensados no
sentido de manter um diálogo francamente equívoco com
vários étimos do português medieval.
Scriptio
defectiva
. Barbarismos mesclam-se a cultismos, fonemas
migram de uma palavra a outra, cacos (improvisos)
atravessam arcaísmos, etc. O poema se transforma numa
espécie de terreno minado ao leitor que almeja
apossar-se de "um" sentido.  O poema tenta, ainda,
mimetizar a formação de um idioma “crioulo”, isto é,
este verdadeiro oxímoro lingüístico que às vezes se
obtém do encontro, não raro trágico, entre culturas
díspares.




Escrito por ronald augusto às 13h06
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