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...saindo de salinas
mais vento emprestado do maroceano as dunas se vão esfiapando não são mais aquelas um chuá grosso incansável feito esses sotaques cantados esses queixumes fáticos que a astúcia de sereias poliglotas interpola ao seu resmiado sem resumo capaz mesmo de amolecer os miolos do mais sério e do mediano renomado
Escrito por ronald augusto às 12h02
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chega devagar, devagarinho
Na comunicação poética, ao invés de uma "mensagem", o que se comunica é um poema. Isto é, temos aí uma transmissão mais de formas que de conteúdos. Neste caso, o leitor não decodifica o poema-mensagem, ele o re-inventa. O poema "de saída" criado pelo poeta não é o mesmo poema "de chegada", momento em que o leitor o frui na liberdade do seu silêncio, na música do seu pensamento. Neste extremo do processo da comunicação poética, a coisa muda de figura. Um poema é sempre outro.
Escrito por ronald augusto às 17h12
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razão pela qual o blog se chama como se chama
A poesia brasileira vai entrar para a Liga Nacionalista. Oswald de Andrade acaba de deitar manifesto - uma espécie de plataforma-poema daquilo que ele chama Poesia Pau-Brasil. Eu protesto.
Em primeiro lugar esta história de pau-brasil é blague. Quem na minha geração já viu o famoso pau? Não há mais pau-brasil.(...)
Poesia Pau-Brasil. O nome é comprido demais. Bastava dizer Poesia Pau. Por inteiro: Manifesto Brasil da Poesia Pau. Porque é poesia de programa é pau. (Manuel Bandeira, 1924)
Escrito por ronald augusto às 17h55
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espiral zeosória
findo abestalhado acabado e acabo de ler zeosório blues de edimilson de almeida pereira e só presto agora para anotar passar a essas linhas um pouco da zoada que este livro alto volume provocou no oco da minha idéia
no início (narciso ) parecia estar lendo lambendo livro-primo do meu homem ao rubro a oralidade atravessada a gramática anômala a sintaxe pé-de-chinelo (sub úrbio orbitante exorbitante) mescalino-canora mesclada a uma esgarçada algaravia roseana hummm mas essa referência assim-assim “fora de lugar” queda bastante rebatida esfumada mesmo ao fundo não chega (nem alcança) a pôr unhas de fora não embola a poesia do edimilson que soube a tempo torcer-lhe o pescoço
antes o irredutivelmente pessoal de sua lingua gem ganha todos os costados do livro e o espaço do vazio papel secundado pela brancura
e leio edimilson e ele contente por trazer os índices (enguices) linguais do job de campo jogo de trampo gênio do corpo oralidade orilibertinagens fala dos nomes próprios feito ex- libris intraduzíveis biografemas involucrados invocados mitos personae: “soar através de” suas máscaras
“você me conhece?” a epígrafe certeira sagital do pernambucano que engoliu a música e tinha o teclado do piano por dentadura
num lance do caminho tinha o marfim e o ébano
zeosório desconcertante perdi o rebolado em muitas passagens o discurso vem dar vai é na praia da página sapecado com o magma algarávico do não-sentido o barroco é mais embaixo mas já forcejando faro fino a porta de entrada do antro de um sentido provável que é meta morfose metáfora imagem um móbile sem óbices
zeosório multivalente hermético & pop o título mesmo já dá conta dessa dialética do oxímoro
o livro finta parece perder as estribeiras mas logo ali incrivelmente se concentra embicando sempre por negaceios na direção do seu não-lugarejo: uma ruína não demora muito é muro arquitetura
zeosório instável groovioso zaúmjazz o exoesqueleto de uma certa dicção doutora envelopa a duras penas a polpa repleta de nervuras da analógica (poesia) e suas “ilusões rascantes” quero dizer e digo não sei se mal que em muitos poemas um fraseado de escapelo (apalpadela interpretante que sonha silêncio búdico relativamente ao que não pode ser dito) e de cercamento do inteligível é levado ao extremo da alucinação figural o movimento esbarrado do esclarecimento ao escurecimento como epifania
o que ele diz (o fraseado) ao fim e ao cabo não é para qualquer dr. não-sinhô dos desprazeres que não sabe escrever uns passos-letras de samba que abusa de palavrinas que não o fazem cagar duro
ao invés zeosório vem mestre-sala meneio de abas veste de dobras e sombras e no seu rádio-marmita tresanda todo o mundo inclusive principal mente o da linguagem
zeosório soul la nada sou eu lendo o de-saborear do edimilson de almeida pereira familiaridade de música calada na voz de muitos cantores identificados por iniciais capitulares molambos de malungos para enfim
“para essas coisas/ não temos frase” mas ritmo e “é o músico que o/ desdobra”.
(janeiro, 2003)
Escrito por ronald augusto às 10h33
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um pouco de música
A canção é uma obra onde se integram de maneira inextrincável informações musicais e verbais. Letra de música não é bem poesia. O compósito canção não é, portanto, um subdiretório daquela já consagrada poesia do suporte livro/papel. Palavra para ser, mais do que lida, murmurada na solidão. Apesar de a canção conviver muito bem com a arte da poesia, não resta dúvida de que o canto-falado da música goza de uma especificidade em termos de linguagem. Neste sentido, a canção não tem, rigorosamente, nada a ver com um poema; da mesma maneira que, por exemplo, uma obra fílmica guarda muitas diferenças em relação a uma montagem teatral. Música é palavra voando, na feliz formulação de James Joyce. Na canção verifica-se uma oscilação permanente entre fala e canto. A expressão oral, os sotaques “cantados”, o pregão do ambulante, etc. são, por assim dizer, formas brutas da canção. Uma sílaba mais longa, aquela pausa inesperada na elocução, uma seqüência de inflexões quase onomatopaicas, enfim, tudo isso está na raiz dessa fala que se transforma em melos, em canto. Não se pode “declamar” ou apenas dizer a letra da canção. Fazendo isso negamos a música. É como se tentássemos descrever um balão sem mencionarmos sua pele de látex.
Escrito por ronald augusto às 10h09
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aldeiateiaidéias
O pertencimento a uma cultura regional bem delineada ou a afirmação das identidades não precisam enveredar para uma reação conservadora, do tipo xenófoba, fazendo do direito à diferença uma barreira de incomunicabilidade.
A emergência de uma cultura planetária, com todas as implicações decorrentes, põe em causa a ideologia da pureza cultural – a cultura local e o pitoresco que a ela é agregado -, o tradicionalismo como camisa-de-força que, por outro lado, não tem nada a ver com uma tradição viva, sem galpão, que se revitaliza/atualiza no presente, modificando-o por sua vez.
A poesia problematiza essas questões pela ótica do estranhamento, e sempre fora do lugar estabelecido pelo senso comum. A poesia não tem “um” lugar; ela sempre abandona o terreno eventualmente ocupado. Em poesia, o outro não é bem o outro. A poesia, ainda poliglota, diz em espanhol: nosotros. Pelo viés estético do poema, vislumbramos o estranho no familiar.
Escrito por ronald augusto às 10h03
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traição
O épico se funda nas narrativas do passado (mitos/história), e, paradoxalmente, no projeto utópico de construção de uma identidade e um verismo nacionais. O poema épico plasma a língua e cultura de um povo. A clave lírica pertence à categoria do existente efêmero e vai operar sobre o real a partir da singularidade da fala que denuncia os sinais fonológicos da pessoa- indivíduo; e esta linguagem de alguns instantes vem a ser o poema dessa modernidade que se projeta no agora-agora.
Hoje, a balança épico/lírico se encontra francamente desequilibrada para o lado do lírico-fala-linguagem. Estamos mais aptos a apreciar a linhagem/linguagem de poetas da fragmentação e da polissemia, do que a linha/língua de artistas mais objetivistas, devotados a recuperação de uma expressão clara, narrativa, e de comunicação envolvente.
Todo e qualquer cânone resulta do atrito entre essa duas linhas de força: a língua e a linguagem. Por analogia poder-se-ia falar em tradição e ruptura. Fique o lembrete de que o limite entre estas polarizações é sempre impreciso.
Escrito por ronald augusto às 15h53
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alguns instantes
A poesia, por ser uma espécie de tirada analógica (um jogo) no interior mesmo do discurso verbal mais propenso a uma lógica-analítica, acaba se constituindo numa linguagem de índole efêmera em relação ao meio lingüístico que lhe serve de pano de fundo. A poesia é vista como um corpo estranho, um desregramento dentro da regra, signo sob suspeição. Já a língua corrente requer outra abordagem; os fatos têm mostrado que a nossa língua de todos os instantes se vai desfazendo de sua vivacidade criativa, do seu frescor, na medida em que seus traços, significados e inflexões, em obediência a idéia de “termo médio”, se acomodam pelo uso repetitivo. Noutras palavras, a fala cotidiana não está longe de tornar-se uma arenga monocórdia de vendilhões publicitários. Por conseguinte - ou simultaneamente -, mesmo que não seja este o seu propósito imediato, a poesia se transforma, pela diferença, numa crítica a esta linguagem agora quase fática, que é, salvo erro, empobrecedora, haja vista os fins práticos aos quais está ela submetida, e que invariavelmente exigem dela mensagens lineares e sinais com o mínimo de “ruído”. Isto é, mensagens determinadas pela lei do menor esforço, que tendem, em suma, a apequenar nossa compreensão de mundo. Parece uma contradição entre termos, mas a poesia é uma arte de palavras que vai contra a maneira supostamente correta de mobilizar estas mesmas palavras para se obter tais e tais efeitos.
Escrito por ronald augusto às 15h41
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arnaldo X
1948 - 2004
orum o palíndromo atravessado na frente dos sem-narinas o orum não oscila entre ser algo ou nada não queda à mão mas o pensamento o pensamenta tanto e de tal modo que às vezes até consegue deter num fotograma o cine-orum em termos de rente afrografia emprestada ao silêncio do corpo
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negror de transegum axévier hipérion é meu hipograma meu paragrama cerco de obsessões acústicas encosto que se anagramatiza fora da consecutividade da cláusula temporal
programa de negro software rasgacéu achega de xangô multilingual
na quebrada de xangô xangô de cara com o arnaldo
xingou e foi xingado
Escrito por ronald augusto às 15h12
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Arnaldo Xavier [1948 – 2004]
por Ronald Augusto (Tradução: Niyi Afolabi)
orun the traversed palindrome in front of the nostril-deprived orun oscillates not between being something and nothingness it escapes the reach of the hand but thought thinks so much of it to the extent that at times it even succeeds in leaving a photogram an orun-ciné in terms of close afrography lent to the silence of the body
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transegun jet black axévier hyperion my hypogram my paragram acoustic-obsessive circus strut that anagrammatizes beyond the consecutiveness of temporal clause
black program heaven-piercing software multilingual Sango arrangement
in territory of the sangoesque when annoyed with Arnaldo
he insulted and was insulted
Escrito por ronald augusto às 15h00
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