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cândido rolim

Pedra Habitada é menos um livro de poemas do que um lance radical e criativo focado na investigação sobre os limites do que pode ser dito por meio de uma música sem-versista. Isto é, não se trata de “mais um” livro de poemas – como poderiam supor aqueles super-escritores que jamais dão por finalizado o seu livro-para-acabar-com-todos-os-outros-livros, porque consomem seus tenros estofos de gênios tentando não sucumbir a uma intrínseca mediocridade que os constitui -, é, pois, um livro-projeto; livro que se situa. Com efeito, Cândido Rolim não só se mantém a par dos debates que problematizam a poesia contemporânea, como também interfere nesse colóquio fazendo aflorar as armas de sua “crítica parcial” (Baudelaire), quer seja via um exercício de análise que é instrumentalizado na forma de resenhas, artigos e ensaios, quer seja via uma difusa metalinguagem com que produz e enerva a sua e a poesia dos seus contemporâneos.

 



Escrito por ronald augusto às 15h44
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sobre Ex, Peri, mental

A poesia de Ricardo Silvestrin impele o vento do pensamento, é subversiva como a rede, “este objeto da preguiça”. Não há poeta mais inteligente do que ele no território ignoto da invenção verbal contemporânea. O que quero sugerir com inteligente? Não cabe aqui a lembrança do hacker, muito menos evocar a imagem do erudito da hora e suas tiradas espirituosas. Como sua inteligência, a poesia de Ricardo Silvestrin pulsa em estado líquido. Ideograma e hemograma. Líquidos, o abraço da rede, o vento que sabe ser áspero ao embaralhar a ramagem dos signos. Em nossa tradição poética predominam sólidos e gasosos. Por isso, me derreto diante da beleza não regulamentada da poesia de Ricardo Silvestrin: um chega-pra-lá neste antagonismo. Poesia que não traz conhecimento, não produz saber, nem resolve enigmas. Ela nunca permanece no lugar onde até há pouco a deixamos. Vazante socrática. Agora, em cada poema, podemos apalpar o íntimo das coisas na pele mesma do aparente. A linguagem de Ricardo Silvestrin, que se mantém intrinsecamente experimental desde o seu Viagem dos Olhos (1985), é um lance de puro pensamento-arte. Tudo o que os fast thinkers, baratas tontas, piolhos formados à sombra da opinião alheia, mais odeiam.

Escrito por ronald augusto às 15h34
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meu cummings

Edward Eastlin Cummings - que sempre assinou e. e. cummings (em caixa baixa). Nasceu em 14 de outubro de 1894, em Cambridge, Massachusetts. Estudou em Harvard, de 1911 a 1915, especializando-se em literatura grega. Ficou preso por três meses, por engano, sem qualquer culpa. Dessa experiência resultou a obra The Enormous Room, publicada em 1922. Em 1923 publicou seu primeiro livro de poemas, Tulips and Chiinneys. Viveu toda a vida dos modestos ganhos de poeta e pintor. Morreu em 3 de setembro de 1962, em Madison de um ataque cardíaco. (colaboração de Ana Mello)

 
cummings, e.e. – 73 poems (1958-1962)
 
quem é esta
dúc
     til
mademoiselle

da s
      ua
luminos
a m
      oi
a tím (um

se à
        boca pe
quena um onde
um resgua
                  rdo)ida

metá
fo
    ra
?la lune

who is this
dai
     nty
mademoiselle

the o
       f her
luminous
se
       lf
a shy (an

if a
       whis
per a where
a hidi
            ng)est

meta
ph
   or
?la lune

 
marcando o ruído à valéry e amplificando a tonalidade “afrancesada” do poem, o self (em cummings) fracionando da oitava para a nona linha da 2ª estrofe, transformou-se na minha tradução em m/ oi, no feminino princípio; conforme (em homenagem ao mesmo) paul valéry de “la jeune parque”, versos 101 e 102, a saber: MOI, mortelle souer e harmonieuse MOI. preferi o estranhamento. a solução literal, "seu luminoso eu", não seria potente e, de resto, não responderia à sutileza sexista do pronome her. e veja (numa mirada estocástica) o self encasulado na palavra mademoiselle.


Escrito por ronald augusto às 15h17
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saindo de salinas

friedrich está para a filosofia
assim como vincent
para a pintura
mas não é uma
a coisa-paisagem onde me sinto imerso
pensamento

esse homem
imiscuído àquelas criaturas minúsculas
sob umbrelas de beira-praia e
carcomido
pelo vinoso mar


Escrito por ronald augusto às 14h58
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diábolos em qorpo santo

O autor de Mateus e Mateusa é, sob todos os aspectos, um artista verdadeiramente revolucionário. Fundador. Em termos poundianos, não há outro meio de classificá-lo senão como inventor. Segundo Guilhermino César, foi o precursor do Teatro do Absurdo. Já para outros um surrealista avant-la-lettre. De minha parte, restrinjo-me a destacar seu teatro-síntese, antiteatro, teatro para acabar com o - ou um certo tipo de - teatro: a well made play, modelo do drama realista do século dezenove, como anota Leda Martins em seu O Moderno Teatro de Qorpo Santo, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1.991. O teatro de Qorpo Santo, espécie de anti-arte - o que fez Décio Pignatari declarar que a linguagem qorposantense é pop e ponto. Dentro dessa perspectiva, e recorrendo a Roman Jakobson, acrescentaria que os distúrbios afásicos de sua linguagem concorrem para a desestruturação da cena teatral. Não obstante a prosa sobre a qual se assenta todo o seu teatro, o que Qorpo-Santo faz chama-se, mesmo a contragosto do solo, poesia. Pensa ideogramicamente. Suas comédias são construídas segundo um princípio de montagem: blocos narrativos que se justapõem sem que haja entre eles o menor fio de enredo. Linguagem em dissolução, "a ida inacabada do subjetivo ao objetivo". Ou como escreveu Leda Martins: "pura experimentação, flashes de situações diversas que se sucedem no palco sem apresentarem seqüência ou unidade". Anti-clímax. Qorpo Santo ama as rimas internas. O efeito jocoso provocado por essas rimas engastadas no metadiscurso dos seus personagens, saturando, abrindo fendas no tema e no argumento, se constitui no exemplo mais simples do distúrbio afásico da contigüidade - prosa - encontrável no teatro de Qorpo Santo. Parafraseando Jakobson: Qorpo-Santo, a inaptidão para o discurso teatral previsível e a desmantelamento da capacidade de construir enredos propícios a montagens anêmicas.

Mas, ainda há lugar para todos no teatro qorpo-santense. Há, por exemplo, lugar para os ideólogos da desconstrução e do multiculturalismo. A título de instigação, notar: o sexismo carnavalizado, mescla de misoginia e feminismo grotesco; o machismo circense, homem-palhaço travestido de mulher: laranjas saltando do sutiã. E para os estudiosos de literatura comparada, não será custoso perceber que o grosso e o fino - the hard and the soft - na criação verbal oitocentista do Brasil estão emblematizados, respectivamente, em Qorpo-Santo e Machado de Assis.

Escrito por ronald augusto às 18h56
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