Para o leitor, o poema se apresenta, numa primeira aproximação, como que vertido em língua estranha, mas ao mesmo tempo remotamente familiar. Na comunicação poética, a imagem da leitura como operação tradutória se impõe de modo decisivo. A comunicação poética pressupõe certa dose de intraduzibilidade, mas que, por outro lado, se resolve no momento em que o leitor-poeta assume a responsabilidade pela co-autoria daquele texto, por meio de um gesto de interpretação livre. Tradução-leitura envolvente convertida em transcriação (Haroldo de Campos). O leitor produz, a partir do seu desejo de linguagem, uma versão que mais se presta a uma di-versão do que a qualquer outra coisa.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor, entre outros, de Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004). Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n. 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2002, colaborações em diversos números) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno de Cultura do Diário Catarinense (SC), www.todapalavra.jor.br, www.slope.org, entre outros. Ministra oficinas de poesia. E-mail: dacostara@hotmail.com.
Talvez o que nos desagrade na poesia contemporânea seja o "mundo às avessas" que vislumbramos nas lacunas, nos intervalos de sua "signagem" produtora de sentidos muitas vezes equívocos. A literatura participa do conjunto das manifestações artísticas. Embora isso cause algum embaraço à maioria das grandes editoras, a literatura degenera quando dá as costas ao seu impulso de arte, ou quando se censura nela a vocação para a multiplicidade de sentidos. Para a literatura importa mais a releitura do que a leitura. À perspectiva atacadista do mercado editorial interessa a "leitura". O que faz a literatura, numa época multimídia como a atual, ainda ser alvo de interesse é a releitura. E quem se dispõe, para o bem ou para o mal, a enfrentar esta tarefa é, na maioria dos casos, o próprio produtor, não importando o gênero que pratique, seja o conto, a poesia, o romance ou o ensaio. Eis aqui outro fato, sempre que escrevemos uma peça literária nos vemos implicados num debate de formas e idéias que diz respeito a nós e aos nossos pares, que exige a interferência deles e a nossa réplica futura. Vivemos trocando livros com os nossos iguais, nossos hipócritas leitores; releitores.
aqui neste lugar jaz e dorme alguém que Amor fulminou com flecha, um escolar pequeno e pobre. nome: françois villon. vilão, a pecha. não teve nunca escritura de terra. doou tudo, o vulgo comenta à larga: cestos, pães, estrados, mesas. comparsas, dizei esta versalhada:
Ci gist et dort en ce sollier, Qu’amours occist de son raillon, Ung povre petit escollier, Qui fut nommé françois villon. Oncques de terre n’ot sillon. Il donna tout, chascun le scet: Tables, tresteaulx, pain, corbeillon. Gallans, dictes en ce verset:
Rondó
Rondeau
repouso eterno seja dado a este, Senhor, e claridade desmedida, pois em vida bolso sempre raso teve e no seu prato coisas mal cosidas. rente cortaram-lhe a barba nascente, como a um nabo que se rapa a película. repouso eterno seja dado a este.
Rigor o forçou ao exílio, como se peste, e esfolou-lhe a bunda de pelica, não obstante haver dito ele, à risca: “eu apelo!”, termo de fácil exegese. repouso eterno seja dado a este.
repos eternel donne a cil, Sire, et clarté perpetuelle, Qui vaillant plat ni escuelle N’eut oncques, n’ung brain de percil. Il fut rez, chief, barbe et sourcil, Comme ung navet qu’on ret ou pelle. Repos eternel donne a cil.
Rigueur le transmit en exil, Et luy frappa au cul la pelle, Non obstant qu’il dit: “j’en appelle!” Qui n’est pas terme trop subtil. Repos eternel donne a cil.
VILLON, François n. 1431
Mais do que uma tradução, o que acontece aqui é a linguagem-villon constituindo uma máscara, persona: “soar através de”. ao traço parafrástico do poema em português, não soaria estranho que se lhe aplicasse a expressão “poema à maneira de...” experimento falar através de françois villon numa espécie de interpretação (sentido musical) contemporânea a uma partitura verbivocovisual de mais de 500 anos. no caso de versões para textos da tradição. há uma explicação mais sincrônica que moralizante para fixarmos a figura do traduttore como traditore. em outras palavras, não verti o Épitaphe com aquele apetite filológico-historicista que empreende, per fas et per nefas*, a reconstituição fiel de uma época ou de um fato lingüístico. assim, passei o pé na letra para encontrar a rima, ou a quase-rima (toantes na maioria das ocorrências). desprezei o contexto (lastro documental), visando valorizar um clima: a linguagem de escárnio e, quase sempre, de automaldizer (por isso a modernidade) de françois villon. tradução, por roman jakobson: algo que envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos diferentes.
François Villon - nasceu em 1431, em Paris, chamado François de Montecorbier, adotando posteriormente o Villon de seu pai adotivo, Guilhaume de Villon. Cursou bacharelado e recebeu o grau de mestre em artes da universidade de Paris. Ficou famoso não só por sua obra mas por seu percurso marginal. Assassinou um padre em 1455 em uma briga de rua mas foi perdoado. Preso várias vezes, chegou a ser condenado à morte, mas teve a pena substituída pelo banimento da cidade de Paris. A partir de 1463 não se tem mais notícias dele não sendo conhecida a data de sua morte. A primeira edição de sua obra saiu em 1489. Escreveu Testamento, Balada a Nossa Senhora, Balada dos Enforcados entre muito outros poemas